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Conto III
Cena: Firmina encontra-se com Lucas Romualdo, transformista e mágico nas horas vagas, num enterro de uma velha de 92 anos.

Naquela noite fria do dia 25 de julho ninguém se imaginava num velório, ainda mais de alguém tão querida e amada por todos da família, por amigos e conhecidos. Centenas de pessoas conheceram e amaram D. Laura, falecida aos 92 por infarto fulminante, e que foi uma das fundadoras da sinagoga de sua terra natal, Uruguaiana, fronteira com Argentina. Todos da cidade a conheciam e estimavam muito. Firmina, sua filha mais moça, ficou desconsolada quando recebeu a notícia de falecimento de sua mãe, através de seu irmão Arnaldo. Firmina, durante o velório, não saiu ao redor do caixão, chorando pela sua amada mãe que foi sua grande mestra, modelo e incentivadora. De fato, Firmina era a filha mais apegada.
Lucas Romualdo, 52 anos, amigo de infância e a grande paixão de Firmina na adolescência (na verdade o sonho de Firmina era ter se casado com Lucas, o amor de sua vida, que ela tanto esperou e não aconteceu), encontrava-se em São Marcos na casa de sua tia, distante 50 Km de Uruguaiana,que ouvindo a rádio local, deparou com a notícia de falecimento da mãe de Firmina. (Na verdade ele estava fazendo uma turnê. Estava apresentando seu show de mágicas nessa cidade por dois dias. A mágica o fascinou desde criança). No momento sentiu-se obrigado em comparecer ao velório e manifestar sua solidariedade aos familiares e rezar por D. Laura, pela qual tinha apreço e carinho, embora não visse e conversasse com Firmina há anos. Chegando no velório, e chamando a atenção de todos os presentes pelo seu corpo másculo, maquiagem e sua vestimenta feminina, Firmina, duvidosa de quem o estava cumprimentando, perguntou o nome do indivíduo, ao que ele respondeu Lucas Romualdo. Decepcionada, teve um AVC e foi levada às pressas no hospital mais próximo da cidade. E o pior é que nem pôde enterrar e prestar sua última homenagem a sua amada e querida mãe.

Rodrigo Kuhn Chini
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Conto II
Onde está meu sapato 44, bico fino, salto 7? Questionou Firmina para seu esposo, indignada pelo fato de ter sido deserdada de sua mãe. Na verdade Firmina nunca teve uma relação muito boa com ela. De vez em quando vivia dias de crise, e esse era um deles, em que lembrara novamente da grande mágoa que ainda carrega: sua única herança foi um sapato 44, que nem lhe servia, presente que sua mãe havia ganhado de um famoso estilista italiano. Lembrar do sapato era sempre motivo de angústia, revolta e rejeição.
Naquela mesma noite, saiu de casa com seu carro, matou dois e voltou para sua casa como se nada tivesse acontecido.

Rodrigo Kuhn Chini
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Conto I
Cena: Batida Policial às cinco horas da manhã
Personagens: Helena (freira), Firmina, Evilásia e um bêbado.

Naquela madrugada Evilásia e Firmina convidam freira Helena para assistir a pré-estréia de "Noviça rebelde II: o retorno". A sessão das 2 horas era quase sempre pouco procurada. Após duas horas e meia de diversão ininterrupta, as três decidem tomar um táxi. Ziguezagueando aparece um Fiat 147. O motorista, de aparência jovem, estaciona com dois pneus na calçada e dois na rua. Após atropelar três lixeiras e um gato, eles saem disparadamente. Freira Helena recita seu terço em latim. Evilásia e Firmina rezam o ato de contrição. Após intensas orações, eis a salvação! O Senhor lhes aparece, vestido de brigadiano numa batida policial às cinco horas da manhã.

André Luis Hack
Rodrigo Kuhn Chini
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A vingança
Na segunda-feira, sete de abril de 2008, noticiou Zero Hora: “Desta vez menino não é lançado pela janela, mas sufocado e esfaquiado, afirmou a Polícia Federal”. O inevitável aconteceu. Josias, filho único, de apenas sete anos, filho de Bruno Gracher e Mariângela Milius tinha um futuro brilhante pela frente. Ele tinha um diferencial: desde pequeno foi muito religioso e sua inteligência era de invejar qualquer um. Todos ficavam embasbacados quando ouviam Josias falar, de tanta sabedoria que ele tinha. Quanto à sua religiosidade, acompanhava sua avó Margarida diariamente nas missas e na recitação do terço na Matriz, logo após o término de sua aula, às 5:30h. Pois é, Josias não existe mais! Sua vida foi abreviada. Deixou muita saudade e, além disso, a família em prantos e indignada. Bruno e Mariângela estão desconsolados e clamam por justiça dia e noite, noite e dia. Os indícios estão sendo investigados e apurados o mais rápido possível.
Passados seis meses de investigação sobre a morte de Josias, Bruno encontra-se num barzinho com Firmina, que fora sua amiga e namorada na adolescência. Ambos se amavam tanto que permaneceram juntos oito anos, morando no mesmo teto. Firmina até grávida dele ficou, embora o filho não tenha sobrevivido à gestação. Foi uma espécie de amor à primeira vista. É uma pena que depois desses longos anos de vida conjugal a relação ficou desgastada, fria. Um foi se enjoando e se desgostando do outro. O amor foi se indo, se apagando, o que ocasionou a separação dos dois, cada um tomando novo rumo para a sua vida. Chegou o momento que Bruno tomou a iniciativa de dar um ponto final a esta questão.
Já fazia vinte e cinco anos que ambos não mais se falavam. Na verdade, Bruno sempre havia sido o amor antigo, a grande paixão de Firmina, embora ela tenha se casado forçadamente pelos pais com o rabino Jacob, que muito a influenciou, convertendo-a em judia ortodoxa. Firmina, ansiosa e ainda interessada em Bruno, queria saber sobre ele, o que já tinha feito na vida, se tinha se casado, se tinha filho e tal. Foi só ela perguntar sobre o filho que Bruno chora amargamente, lembrando mais uma vez do acontecido.
Para aliviar este momento de dor e de angústia de Bruno, ao lembrar a morte de seu filho, Firmina o convida para espairecer um pouco e esquecer aquele momento, convidando-o para viajar e se distrair um pouco no Rio de Janeiro. Sem hesitar, não pensou duas vezes e foi, dizendo à sua esposa Mariângela que ia viajar a serviço. Chegando no Rio não desperdiçaram tempo: visitaram o Corcovado, o Pão de Açúcar; curtiram as praias Leblon, Copacabana, Pepê, freqüentaram boates, barzinhos e lembrando o amor antigo, um desejando o outro, vão no motel e vivem uma noite de intenso prazer.
Na manhã seguinte, Firmina, perturbada e desesperada, querendo colocar ponto final nesta questão, tomou coragem ao dizer para Bruno que o objetivo real desta viagem seria a confissão do crime, quando revelou que havia mandado Silas, um mercenário, matar o seu filho e que havia feito isso porque tinha ciúmes de seu amor por Mariângela.
Inconformado e vingativo, Bruno mata Firmina asfixiada no motel e volta para sua casa, em Porto Alegre, certo de que a justiça foi feita com suas próprias mãos.
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A viagem
A viagem

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Náuseas, enjôos, tremores, calafrios, ânsias de vômitos, diarréia e coisas do gênero foi o que senti no Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre-RS, no dia sete de julho de 2003, quando pela primeira vez viajei de avião, com destino a Florianópolis-SC. Era inverno e fazia muito frio. Não sabia se naquela manhã chorava de alegria, ou se sorria de tristeza. Estava muito ansioso. Minha pressão arterial devia estar altíssima, ou quase empatando. Chegou a hora da despedida. Dei um forte abraço na minha mãe e disse a ela duas coisas. Lembro-me perfeitamente até hoje. Mãe, até as férias de verão ou até o dia em que nos encontrarmos no céu, junto de Deus, dos anjos, dos santos e de Maria Santíssima. E minha mãe quase de descabelava de tanto chorar e tremer. Queria me convencer a não entrar no avião, mas mesmo assim ela não conseguiu. Eu venci.
No avião estava tudo tranqüilo até o momento em que ele estava desligado. Mas quando ele foi para a pista de decolagem, quase tive um ataque cardíaco. Não parava de flatulenciar. Inclusive alguns saíram perto da minha pessoa. De fato, o cheiro estava insuportável. Nem eu agüentei. Mas fiz de conta que não tinha sido eu o flatulenciador. Antes do vôo, a aeromoça mostrou como colocar o cinto de segurança. Tremia tanto que não conseguia colocá-lo. Tanto que precisei chamá-la para colocar em mim o cinto. Com antecedência pedi a ela o pára-quedas. Vai que o avião caia e ...
Quando estava voando retirei da minha “necessaire” a minha máquina fotográfica importada do Paraguai. Cada mergulho era um flash. Tirei fotos das lindas paisagens, dos oceanos, inclusive das densas nuvens que cobriam o avião. Senti-me um pouco mais calmo e mais tranqüilo. Não passei fome no avião. Serviram-me suco de goiaba com barras de cereal. Inclusive pedi à senhora que estava no meu lado, que por sinal tinha seu físico avantajado, que me desse a sua também.
Passados cinqüenta minutos de vôo, o piloto anunciou que estávamos chegando em Florianópolis. Dei graças a Deus. Quando o piloto aterrissou, eu, assustado, acordei. Era nove horas da manhã, e estava atrasado para o trabalho.
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