Reflexão semanal do dia 15/10/2010 ao dia 21/10/2010: Refletindo o conto Passeio Noturno (parte I) de Rubem Fonseca, à luz da pós-modernidade
Chini, R. K.
PASSEIO NOTURNO — PARTE I
Rubem Fonseca
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa da cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala? Perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde eu gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisa sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.
Vamos dar uma volta de carro? Convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu carro. Tirei o carro dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Sai, como sempre, sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei, Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em onze segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa do subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.
A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo? Perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa-noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.
Fonte: Acesso em 26/10/2009 no site (http://arquivopodoslivros.blogspot.com/2008/03/passeio-noturno-rubem-fonseca.html)
Análise do Conto:
Corre o dito popular: “A primeira impressão é que fica”. Lendo atentamente Passeio Noturno (parte I), de Rubem Fonseca, este belíssimo conto, tanto pela sua mimese interna (construção e estrutura) quanto seu conteúdo (a história como tal), reportou-me à pós-modernidade , ao ser humano pós-moderno, sobretudo às famílias, por vezes desestruturadas, fragmentadas, cansadas e desgastadas pela rotina, pelos trabalhos e estudos, como é o caso deste pai de família, tratado no conto (pelo visto, deve ser um empresário, de classe média alta). Em meu livro Em busca de sentido para a vida, abordo justamente desta questão, explicando justamente que:
“a razão pela qual elaboro este livro deve-se ao fato de constatarmos, na realidade, uma falta de sentido para a vida. Vive-se uma frustração existencial, o vazio, o vácuo interior, o tédio, a própria sensação de perda do sentido para a vida. O ser humano, por vezes, vive na embriaguez do trabalho, dos estudos, vive rotineiramente. Aquela música popular: “deixa a vida me levar” retrata a realidade vivida por muitos. Devemos ter em mente e pensar o que queremos, de fato, da vida e o que a vida exige de nós. Temos que tomar atitude diante da vida. Precisamos dar sentido ao nosso ser (a nossa existência) e àquilo que fazemos (que é o desdobramento do ser), isto é, o nosso agir. Precisamos sempre ter um ideal, uma meta, um objetivo”. (CHINI, 2009, p.8)
Rubem Fonseca, em Passeio Noturno (Parte I) não cita o nome de nenhum dos membros da família evidentemente para retratar e afirmar, desse momento, o comportamento de muitas de nossas famílias. Pelo que se percebe, o egoísmo, também no âmbito familiar está presente:
“Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa da cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho.”
Um outro aspecto a ser considerado é a fragmentação do ser humano. Nesta família cada ser humano é uma ilha. A família não é vista como um todo, como uma unidade. Cada filho está no seu quarto; a esposa (que por sinal, tudo aponta ser alcólatra) está na cama deitada, o marido se fecha em sua biblioteca... Onde está o diálogo entre os pais e entre os pais e filhos?
Todas as noites o empresário sai para dar um “passeio” com a finalidade de relaxar as tensões de um dia árduo de trabalho, depois de ter jantado com a esposa e os filhos. O ponto alto desse “passeio“ se dá quando ele atropela vítimas indefesas com seu carro importado, matando-as. E o pior: volta satisfeito e relaxado para casa, como se nada tivesse acontecido. Ou seja, matar pessoas é algo normal, banal. Onde está a consciência deste pai de família?
Esse pai reflete a violência tão fortemente presente em nosso país. Matar pessoas simplesmente por matar revela um pai de família doente, uma família doente, preocupada somente com sua posição social, com os bens matérias e com o consumo demasiado dos mesmos (o que á caracteristicamente próprio da pós-modernidade. Aliás, o que pode ser resumido em três palavrinhas mágicas: ter, prazer e poder.
Quanto a estrutura, o conto é tenso do início ao fim. Rubem Fonseca não mede palavras. Diz o que precisa ser dito. É direto. O tempo físico é curto e seqüencial. Os fatos acontecem em ordem cronológica. O tempo psicológico, as vivências e sentimentos dos personagens são evidenciados. Pelo pouco que se diz de cada membro familiar já se tem uma noção da psique de cada um. O autor prende-nos do início ao fim. Conto altamente literário: provoca surpresas, o inesperado acontece, causando impacto e emoção. Transporta-nos ao texto e, por isso, vivenciamos o que está sendo narrado.
O tema é altamente relevante por tratar-se de algo constatável na realidade. O conto é um espelho da realidade familiar atual. Não somente. Mas da sociedade em que vivemos. Instiga-nos e provoca em nós muitas reflexões, inclusive leva-nos a questionar o que levou as famílias a chegarem a tal ponto. Neste âmbito familiar, fazendo um retrocesso, mudanças negativas e degradantes ocorreram em tempos recentes.
É louvável e bom saber que a literatura exerce um papel importante em nossa vida. Além de nos humanizar, abre nossos olhos e nos faz pensar sobre a realidade tal como ela é, e para realidades, temas e assuntos que muitas vezes desconhecemos e não atentamos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Acesso em 26/10/2009 no site (http://arquivopodoslivros.blogspot.com/2008/03/passeio-noturno-rubem-fonseca.html)
CHINI, Rodrigo Kuhn. Em busca de sentido para a vida. Porto Alegre: Cidadela Editorial, 2009.
Rubem Fonseca
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa da cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala? Perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde eu gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisa sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.
Vamos dar uma volta de carro? Convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu carro. Tirei o carro dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Sai, como sempre, sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei, Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em onze segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa do subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.
A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo? Perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa-noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.
Fonte: Acesso em 26/10/2009 no site (http://arquivopodoslivros.blogspot.com/2008/03/passeio-noturno-rubem-fonseca.html)
Análise do Conto:
Corre o dito popular: “A primeira impressão é que fica”. Lendo atentamente Passeio Noturno (parte I), de Rubem Fonseca, este belíssimo conto, tanto pela sua mimese interna (construção e estrutura) quanto seu conteúdo (a história como tal), reportou-me à pós-modernidade , ao ser humano pós-moderno, sobretudo às famílias, por vezes desestruturadas, fragmentadas, cansadas e desgastadas pela rotina, pelos trabalhos e estudos, como é o caso deste pai de família, tratado no conto (pelo visto, deve ser um empresário, de classe média alta). Em meu livro Em busca de sentido para a vida, abordo justamente desta questão, explicando justamente que:
“a razão pela qual elaboro este livro deve-se ao fato de constatarmos, na realidade, uma falta de sentido para a vida. Vive-se uma frustração existencial, o vazio, o vácuo interior, o tédio, a própria sensação de perda do sentido para a vida. O ser humano, por vezes, vive na embriaguez do trabalho, dos estudos, vive rotineiramente. Aquela música popular: “deixa a vida me levar” retrata a realidade vivida por muitos. Devemos ter em mente e pensar o que queremos, de fato, da vida e o que a vida exige de nós. Temos que tomar atitude diante da vida. Precisamos dar sentido ao nosso ser (a nossa existência) e àquilo que fazemos (que é o desdobramento do ser), isto é, o nosso agir. Precisamos sempre ter um ideal, uma meta, um objetivo”. (CHINI, 2009, p.8)
Rubem Fonseca, em Passeio Noturno (Parte I) não cita o nome de nenhum dos membros da família evidentemente para retratar e afirmar, desse momento, o comportamento de muitas de nossas famílias. Pelo que se percebe, o egoísmo, também no âmbito familiar está presente:
“Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa da cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho.”
Um outro aspecto a ser considerado é a fragmentação do ser humano. Nesta família cada ser humano é uma ilha. A família não é vista como um todo, como uma unidade. Cada filho está no seu quarto; a esposa (que por sinal, tudo aponta ser alcólatra) está na cama deitada, o marido se fecha em sua biblioteca... Onde está o diálogo entre os pais e entre os pais e filhos?
Todas as noites o empresário sai para dar um “passeio” com a finalidade de relaxar as tensões de um dia árduo de trabalho, depois de ter jantado com a esposa e os filhos. O ponto alto desse “passeio“ se dá quando ele atropela vítimas indefesas com seu carro importado, matando-as. E o pior: volta satisfeito e relaxado para casa, como se nada tivesse acontecido. Ou seja, matar pessoas é algo normal, banal. Onde está a consciência deste pai de família?
Esse pai reflete a violência tão fortemente presente em nosso país. Matar pessoas simplesmente por matar revela um pai de família doente, uma família doente, preocupada somente com sua posição social, com os bens matérias e com o consumo demasiado dos mesmos (o que á caracteristicamente próprio da pós-modernidade. Aliás, o que pode ser resumido em três palavrinhas mágicas: ter, prazer e poder.
Quanto a estrutura, o conto é tenso do início ao fim. Rubem Fonseca não mede palavras. Diz o que precisa ser dito. É direto. O tempo físico é curto e seqüencial. Os fatos acontecem em ordem cronológica. O tempo psicológico, as vivências e sentimentos dos personagens são evidenciados. Pelo pouco que se diz de cada membro familiar já se tem uma noção da psique de cada um. O autor prende-nos do início ao fim. Conto altamente literário: provoca surpresas, o inesperado acontece, causando impacto e emoção. Transporta-nos ao texto e, por isso, vivenciamos o que está sendo narrado.
O tema é altamente relevante por tratar-se de algo constatável na realidade. O conto é um espelho da realidade familiar atual. Não somente. Mas da sociedade em que vivemos. Instiga-nos e provoca em nós muitas reflexões, inclusive leva-nos a questionar o que levou as famílias a chegarem a tal ponto. Neste âmbito familiar, fazendo um retrocesso, mudanças negativas e degradantes ocorreram em tempos recentes.
É louvável e bom saber que a literatura exerce um papel importante em nossa vida. Além de nos humanizar, abre nossos olhos e nos faz pensar sobre a realidade tal como ela é, e para realidades, temas e assuntos que muitas vezes desconhecemos e não atentamos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Acesso em 26/10/2009 no site (http://arquivopodoslivros.blogspot.com/2008/03/passeio-noturno-rubem-fonseca.html)
CHINI, Rodrigo Kuhn. Em busca de sentido para a vida. Porto Alegre: Cidadela Editorial, 2009.
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