Um olhar sobre o Museu Nacional de Língua Portuguesa: sua relevância e importância no ensino e na aprendizagem dos utentes da língua
INTRODUÇÃO
Intenta-se, com este relatório, trazer à tona aspectos importantes observados e analisados ao longo da visita ao Museu Nacional de Língua Portuguesa (ver, em anexo 1, a foto do Museu de LP), no dia oito e nove de junho de 2010, na Estação da Luz, cidade de São Paulo.
Dia oito (8) de junho, pela manhã, fui ao Museu como relator, na condição de estudante da língua. Neste dia fiz minhas observações, anotações de tudo que considerei significativo. Dia nove (9) fui ao Museu como visitante. E aqui faço uma comparação, uma analogia, sabendo que toda comparação e todo exemplo são imperfeitos. Uma coisa é ler um livro por prazer e lazer. Outra coisa é ler um livro quando ele é o objeto de seu estudo e de sua pesquisa. Assim ocorreu em relação ao Museu, no primeiro dia visitei-o como estudante e no segundo como visitante, como turista. Na tarde do dia nove tive a oportunidade de conseguir alguns livros e materiais referentes ao Museu e também pude conversar com a secretária, Sra. Anamélia. Através de e-mail, fiz uma entrevista com o diretor, Sr. Antonio Carlos de Moraes Sartini.
Com este relatório, objetiva-se, sobretudo, ressaltar também a relevância e a importância de sua existência no Brasil. A escolha do local visitado deve-se ao fato de, em primeiro lugar, ser um apaixonado pela minha língua materna. Em segundo lugar, como futuro profissional e professor de LP, precisamos utilizar todos os meios possíveis e todas as ferramentas necessárias que podem nos beneficiar e estreitar a relação com nossa língua, a fim de uma maior compreensão e assimilação de sua origem, de sua estrutura e de seu funcionamento. E o Museu de LP é uma delas.
Não pretendo neste relatório somente dizer o que foi realizado, passo a passo, mas ressaltar o que esta visita me acrescentou. Não quero dizer apenas que foi legal, que gostei ou não gostei, mas em que aspectos realmente ela contribuiu para a minha formação.
Corre o provérbio que santo de casa não faz milagre. Tal afirmação tem sua veracidade. Antes de visitar o Museu – e já que estava perdido nesta metrópole tão grande – perguntei a 30 pessoas se o conheciam. Para meu espanto, 26 responderam que não e apenas 4 que sim. E isso é tão verdade que, quando estava na fila de entrada, a maioria das pessoas que o estavam visitando eram do interior de SP e de outros estados. Por vezes, valorizamos o que é de fora. Parece que tudo aquilo que é dos outros e pertence aos outros é melhor.

II) ROTEIRO DA VISITA AO MUSEU

A visita ao Museu Nacional de LP é dividida em partes e realizada em grupos, sempre conduzidos por pessoas que lá trabalham e, portanto, têm formação específica na LP. Inicialmente, foi-nos apresentado um vídeo acerca da origem e da história da nossa língua, especificamente dito sobre a linguagem humana e sua importância, sobretudo no que tange à escrita e à oralidade. De fato, o ser humano, por ser um ser social na sua essência, tem necessidade de se expressar, de conhecer a si mesmo, os outros e de se comunicar. Dada a evolução da escrita, hodiernamente falando, é impensável conceber o ser humano e o mundo em que vivemos sem ela. É incontestável que a escrita é um grande legado que os antepassados deixaram à humanidade e que, ao longo do tempo foi, e ainda está sendo, aperfeiçoada.
O vídeo frisou também que sem ela não haveria história, não haveria comunicação, nos moldes atuais, e tampouco conhecimentos preservados. Por isso não é exagero fazer tal afirmação, pois, sem a escrita, seríamos pessoas bastante vazias, incultas, mal formadas e informadas. Mallarmé afirma que as palavras têm um poder transformador em nossas vidas. Com algumas letras do alfabeto podemos transformar o mundo. Para tanto precisamos dominar a linguagem o suficiente para bem escrever, ou seja, escrever de modo claro, preciso e objetivo. Para isso quanto mais leitura e escrita, maior será o nosso mundo, ensina-nos Carlos Nejar.
Essa capacidade inata que o ser humano tem para adquirir e desenvolver a linguagem verbal e, por conseguinte, comunicar-se através dela, é um aspecto fundamental, pois ela nos distingue dos demais seres. Só nós, seres humanos, planejamos o presente e o futuro. Só nós temos lembranças registradas. Com a língua expressamos a nossa identidade. Ela é a nossa pátria mais profunda. Ainda em relação à escrita, graças a ela, somos o que somos. São incalculáveis os benefícios que nos proporcionou e, com certeza, ainda proporcionará, à medida que nos dedicarmos ao seu estudo e soubermos fazer uso adequado da língua escrita.
Após a exposição belíssima desse vídeo, e as reflexões por ele acima abordadas, chamou-me atenção o quanto o Museu explora a mídia, a tecnologia, os meios de comunicação a favor do ensino e da difusão da língua portuguesa.
No segundo momento, fomos convidados a penetrar surdamente no reino das palavras. Ouviu-se uma voz dizendo: “Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Caminhávamos na Praça da Língua, entre contos, poemas e textos literários de língua portuguesa, todos transpostos no chão, iluminados, num ambiente escuro. Ao mesmo tempo em que líamos, escutávamos várias declamações de textos altamente literários, maioria deles já familiares a todos, os quais cito abaixo:

Total – Grande Sertão: Veredas – J. Guimarães Rosa
Saudação a Walt Whitman - Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
Ode – Ricardo Reis / Fernando Pessoa
Mais Pessoas/ O Penúltimo Poema – Alberto Caieiro / Fernando Pessoa
Além-Deus / IX / Queda Pessoa
Excerto Tabacaria – Álvaro de Campos / (Fernando Pessoa )
Sim / Ricardo Reis – (Fernando Pessoa)
Pessoas – Nada Sou, Nada Posso, Nada Digo – ( Fernando Pessoa )
Guardador de Rebanhos – IX / Alberto Caieiras – (Fernando Pessoa)
Língua – Padre Vieira – excerto Sermão do Espírito Santo
Soneto da Separação – Vinícius de Moraes
Uns Abraços – Machado de Assis em Várias Histórias
Verdade Vergonha – Gregório de Matos – Epílogos
Navio Negreiro – Castro Alves – Navio Negreiro
Excerto do cap. 9 O Menino é o Pai do Homem – Memórias Póstumas de Brás Cubas
Uma Galinha – excerto de Laços de Família – Clarisse Lispector
O Ovo – excerto de O Ovo e a Galinha – Legião Estrangeira – Clarisse Lispector
O Ovo da Galinha - João Cabral de Melo Neto - excerto em Serial
Inventa Línguas – Haroldo de Campos – Circulandô de Fulô
Embolado do C ( do CD Andando de Coletivo ) – Caju e Castanha
Favela – Carlos Drumond de Andrade – Favelário Nacional – Corpo
A Onda – Manuel Bandeira – Estrela da Tarde
Qualquer Amor – João Guimarães Rosa – Excerto Grande Sertão: Veredas
Morte da Baleia – Graciliano Ramos – Cartas à Heloisa
Vidas Secas - excerto - Graciliano Ramos
A Canção do Exílio – Poemas – Murilo Mendes
Migna Terra – Juó Bananère – Divina Encrenca 1924
Canção do Exílio Facilitada – José Paulo Paes em Um por Todos
Canções do Exílio - Oswald de Andrade em Primeiro Caderno do Aluno
Juízo Final – Nelson Rodrigues – excerto Morrer com o Ser Amado
Versos Íntimos – Augusto dos Anjos em Eu
História do Brasil – Carnaval – Lamartine Babo – História do Brasil
Canto Regresso à Pátria – Oswaldo de Andrade – Pau Brasil
Emília – Memórias da Emília – Monteiro Lobato
Juízo Final – Nelson Cavaquinho/ Elza Soares
Lira Paulistana – Mário de Andrade – Garoa do meu São Paulo
Lira Galego – Brasileira – Martin Codax – Cantiga do Séc. XII
Cantiga Paralelística – Lira dos 50 Anos – Manuel Bandeira
A Palavra e a Terra - C. Drumond de Andrade – Palavra e a Terra/ Lição de Coisas
Assum Preto – Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira
Palavra Amar – O Seu Santo Nome / Corpo – C. Drumond de Andrade
Soneto II – Camões
Quadrilha – C. Drumond de Andrade
Os Três Mal Amados – João Cabral de Melo Neto - excerto


No terceiro momento da visita, num corredor imenso, como que uma espécie de cinema, foram projetadas na parede as diferentes variantes da língua portuguesa, ou seja, pessoas de diversas culturas e regiões do Brasil falando a sua língua com seus sotaques, influências e especificidades. Muitos até gracejavam, como que numa espécie de preconceito de algumas variantes faladas pelos nordestinos e por brasileiros de outras regiões. E este momento culminava com a célebre frase de Antônio Ribeiro:


A língua portuguesa é rica e diversificada. Está em constante movimento. Nossa matéria prima é a palavra. A palavra como som, como sentido, como prática, como senha, como signo cultural distintivo, como argamassa social, como história, como objeto, como entidade mutável e mutante.

E ainda ressaltava a importância da diversidade e das diferenças existentes entre os falantes:

línguas são faladas por pessoas e as pessoas são muito diferentes umas das outras. Elas se distinguem de acordo com sua classe social, experiência de vida, região geográfica. São distintas no falar e no escrever. Cada grupo tem sua língua.

Em um quarto momento, numa espécie de linha cronológica, desde 4000 a. C até os dias atuais, foi-nos apresentada a evolução da LP, do indo-europeu ao latim vulgar, do latim ao português, abrangendo a expansão marítima portuguesa, o Brasil dos séculos XVI ao XIX, o Brasil dos séculos XIX e XX até os dias atuais. No final desta exposição, havia um espelho no qual podíamos nos enxergar, evidenciando que a língua é o nosso retrato. Somos o que falamos. Conhecemos a interioridade de uma pessoa pela sua linguagem oral, escrita, corporal, facial...
Em um quinto momento entramos no beco das palavras. Nesta sala qualquer pessoa podia não só brincar com a origem das palavras (etimologia), mas também observar sua formação em raízes, radicais e prefixos.
Em um sexto momento deparamo-nos com erros nossos de cada dia, dentre os quais transcrevo alguns:
“Deixa eu estudar”.
“Vamos se ver amanhã?”
“Os jogadores substimaram a capacidade dos rivais”,
“Ele sempre fez o que quiz”.
“Não lhe conheço”.
“Eu vi ela na festa”.
“A viúva do falecido está aí fora.”
“A questão não tem nada haver com você”.
“Ela ficou meia cansada”.
“Fazem dois dias que não nos vemos”.
“Fi-lo porque qui-lo”.
“Quebrei meu óculos”.
...

Nesta sessão refletiu-se também sobre a função dos gramáticos, de que eles devem ser um cientista da língua, um observador dos fenômenos linguísticos. A gramática vem depois da língua. Esta é uma ideia defendida mais pelos linguistas. E também assistimos a um vídeo bem humorado e cômico sobre quatro mulheres, cada qual com seu ponto de vista concernente à língua e às suas normas: a Norma Helena, que defende a norma gramatical; a Norma Brigitte, que defende a norma lexical; a Norma Lídia que defende mais a semântica e a Norma Maria, que defende o ponto de vista defendido pelos linguistas. Uma era mais radical, outra mais flexível, outra purista...
No sétimo e último momento da visita passamos por um corredor imenso repleto de placas redigidas com erros gritantes, o que evidencia que muitos de nós desconhecemos nossa língua e o seu funcionamento. Portanto, pelo fato de não a conhecermos como deveríamos, não sabemos bem utilizá-la.

III) CONCLUSÃO

Visitar o Museu de Língua Portuguesa e fazer um relatório sobre ele, como já enfatizado, não implica simplesmente dizer gostei ou não gostei, achei legal ou não achei legal. Foi um momento de refletir e de conhecer um pouquinho mais sobre o rico instrumento que usamos em nosso cotidiano. Foi perceber o quanto a língua é importante, essencial, indispensável em nossa vida. Foi perceber e constatar o quanto a desconhecemos e o quanto temos que aprender sobre a nossa língua materna: sua origem, história, estrutura, sua gramática e as influências de outras línguas em nossa língua... Usamo-la diariamente e a conhecemos tão pouco. Sócrates, exponencial filósofo, tinha razão ao afirmar: “Só sei que nada sei”. Isso porque o conhecimento das coisas e do mundo que nos cerca é ilimitado. Quanto mais o ser humano conhece o seu objeto, o seu alvo de estudo (neste caso a LP), mais ele reconhece a sua ignorância e o quanto precisa conhecer mais de modo acentuado e profundamente. Ao menos esta visita serviu-me para isso. E digo com todas as letras que a língua é um mistério sobre o qual vale a pena se debruçar e refletir. E refletir no sentido literal do que esta palavra implica e significa: meditar sobre, pensar demoradamente sobre... Oxalá possamos aprofundar este rico instrumento com o qual fomos dotados, a linguagem, mais especificamente a nossa língua, com a qual convivemos e nos relacionamos.
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1 Response
  1. Anônimo Says:

    seu relatório é realmente muito rico. parabéns!!!


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