Reflexão do dia 17/08/2010: Banco de Poemas sobre a morte
Minha intenção, com este banco de poemas, é trazer presente um tema por vezes minimizado, ou até ignorado por muitos, por tratar-se do inevitável, da morte, que nos causa pavor e medo. Realidade esta que não escaparemos, por sermos seres mortais, finitos, imanentes, transitórios.
Como é comum do ciclo da vida, tudo nasce, cresce e morre. Somos seres humanos imanentes (finitos), porém, transcendentes (infinitos). A morte não é apenas tratada e vista pelas religiões, pela psicologia e pela medicina, mas a própria literatura, nos seus mais variados períodos, permite refletir sobre tal temática, bem como expressar o que muitos poetas presenciaram ao longo de sua vida: perdas de parentes, amores, pessoas amigas e até mesmo, como diria São Francisco de Assis, a irmã morte tocando a sua porta.
Com esta seleção de poemas, convido você, caríssimo leitor, a percorrer e ler, detalhadamente, o que notáveis e renomados poetas tem a nos dizer sobre a morte, embora nunca pudessem escrever sobre a sua experiência de morte. Deveras, só experimentamos a morte e o sentimento de perda através da morte dos outros, daqueles que amamos e, por isso, deixaram saudades, um vazio incomensurável. Somos únicos, e por isso, insubstituíveis. Ninguém ocupa o lugar e o espaço do outro que se foi.
Que este trabalho nos ajude e nos leve à compreensão deste mistério muitas vezes incompreendido, mas que aos olhos da fé nos leva a crer que a morte não é o fim, mas o início de uma vida eterna, duradoura e feliz!

Adolfo Casais Monteiro

A tua morte em mim
À memória de Raquel Moacir

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.

Pesquisa On-line no Site: http://www.fotolog.com.br/mary_a2laimada/73081056.Acesso em 01/10/2009.


Alexandre Luiz Gobeti
Doce Morte
Doce Morte venha e venha logo.
Não demore a aparecer.
Estou farto dessa vida
E não quero envelhecer.
Leve-me para longe, ao fim.
Onde guardas o que é teu
Que não reste nada mais de mim
Nem o que o Pai me prometeu
Oh, quem dera que o céu não exista.
E que tudo vire pó, sem dogma, sem cor.
Apenas lembranças, do que foi, que foi o amor.
Se viver fosse algo sadio.
Não começaria com choro ou teria o seu fim
Se a Vida fosse algo bom então não seria mais assim.
Pesquisa On-line no site: http://sitedepoesias.com.br/poesias/24351 Acesso em 02/10/2009.



Alphonsus de Guimaraens



Hão de Chorar por Ela os Cinamomos...

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"





Pesquisa On-line no Site: http://www.portaldascuriosidades.com/forum/index.php?topic=62833.0 Acesso em 02/10/2009.

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar. . .
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...



Referência Bibliográfica:
In MORICONI, Ítalo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001, pág. 45.

Mário Quintana
Libertação

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapato.



QUINTANA, Mário. Antologia Poética. Porto Alegre: Edipucrs, 2007, p. 132.

Pequena crônica policial

Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida...
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos.

Referência Bibliográfica:
QUINTANA, Mário. Antologia Poética. Porto Alegre: Edipucrs, 2007, p. 100.
1 Response
  1. Mt bom Rodrigo!

    Uma bela coletanea de poemas mesmo!


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