A RESPOSTA TRADICIONAL AO PROBLEMA DE DEUS: AS CINCO VIAS DE SANTO TOMÁS DE AQUINO
A RESPOSTA TRADICIONAL AO PROBLEMA DE DEUS: AS CINCO VIAS DE SANTO TOMÁS DE AQUINO


RODRIGO KUHN CHINI


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1. VIDA E OBRAS

2.CAMINHO PARA AS CINCO VIAS

3.A ESTRUTURA FUNDAMENTAL DAS VIAS PARA A EXISTÊNCIA DE DEUS

4. AS CINCO VIAS
4.1 A Primeira via
4.2 A Segunda via
4.3 A Terceira via
4.4 A Quarta via
4.5 A Quinta via

5.ALCANCE E VALOR DAS CINCO VIAS DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS




INTRODUÇÃO

Intenta-se, com essa pesquisa bibliográfica, trazer presente, de modo resumido, a vida e algumas obras do “Doctor Angelicus”.
O objetivo principal dessa pesquisa é apresentar as cinco vias de Santo Tomás de Aquino, bem como o alcance e o valor delas nos dias atuais.


1. VIDA E OBRAS

Foi um grande gênio da metafísica e um dos maiores pensadores de todos os tempos. Italiano por parte de pai e normando pelo lado da mãe, Tomás nasceu no castelo de Roccasecca, a sul do Lácio, em 1221. Sua educação primária se deu na abadia de Montecassino. Tomás prosseguiu seus estudos em Nápoles, na universidade fundada por Frederico II. Em 1244 ingressou na Ordem dos Dominicanos. Um ano depois se encontra em Paris, onde continua sua formação teológica com Alberto Magno. De 1248 a 1252, permanece em Colônia, ainda dedicado aos mesmos estudos, até que volta para Paris e prossegue suas atividades universitárias. Convidado pelo mestre a expor o seu ponto de vista sobre uma “quaestio” que estava sendo debatida, Tomás foi apelidado de “boi mudo” pelo seu comportamento bem reservado e silencioso. Expôs o problema com tanto brio e tanta profundidade que levou Alberto Magno a exclamar: “este, que nós chamamos de `boi mudo`, mugirá tão forte que se fará ouvir no mundo inteiro!
Tomás foi um incansável trabalhador que se empenhou em ordenar o saber teológico e moral acumulado na Idade Média. Como resultado produziu uma grande obra que possui mais de sessenta títulos. As mais importantes são os Comentários sobre as sentenças; Os Princípios; O Ente e a Essência; a Súmula contra os Gentios; as Questões sobre a Alma; Questões diversas e a Suma Teológica.
Foi surpreendido pela morte aos cinqüenta e três anos, em 7 de março de 1274, no mosteiro cisterciense de Fossanova, quando viajava para Lião, para participar do Concílio de Lião.

2. CAMINHO PARA AS CINCO VIAS

Tomás de Aquino, antes de chegar nas cinco vias da existência de Deus, faz um grande estudo filosófico do argumento ontológico de Santo Anselmo, como também de conceitos avicenianos e averronianos a respeito da concepção da existência de um ser superior.
Com a noção de participação procede Santo Tomás a demonstração da criação de todas as coisas finitas por Deus e da distinção real entre essência e ato de existir entre toda criatura. Esta noção confere ao tomismo o caráter de síntese definitiva do pensamento clássico e do pensamento cristão, colocando-o em condições de satisfazer a todas as exigências de intimidade metafísica entre o finito e o infinito apontados pelo pensamento moderno.
Por isso, Santo Tomás pode oferecer, na fase madura do seu pensamento, não apenas nas cinco vias para ascender até Deus; cada uma delas parte de um fato ontológico evidente, de evidência experimental, e dentro dele elabora a relação de dependência. Cinco vias de cinco pontos de partida diferentes, mas idêntico o termo que é a existência de Deus, como princípio primeiro e absoluto de todas a modalidades de seres.


3. A ESTRUTURA FUNDAMENTAL DAS VIAS PARA A EXISTÊNCIA DE DEUS

Tomás se contrapõe ao “argumento ontológico” de Anselmo, pois, para este, a existência de Deus pode ser demonstrada aprioristicamente, somente pelo exame co conceito de sua essência. Para Tomás, isto não é possível desta maneira, porque o nosso conceito de essência divina é muito imperfeito e, conseqüentemente, não podemos ver que ele contém a existência. Assim sendo, segundo Tomás, a prova da existência de Deus é somente aposteriori, ou seja, pelos seus sentidos. Para tal, ele propõe as cinco vias no quadro abaixo:


Proveniência das vias Conceito de Deus
Primeira Via Movimento e categorias ato e potência Primeiro motor.
Segunda Via Natureza da causa eficiente Causa eficiente primeira.
Terceira Via O possível e o necessário Um ser por si necessário, a causa das necessidades dos outros.
Quarta Via Graus que se encontram nas coisas Um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe.
Quinta Via Governo das coisas Um ser inteligente e ordenador das coisas ao fim.



4. AS CINCO VIAS

4.1 Primeira Via: do movimento ao motor imóvel

A primeira via é considerada a mais evidente, a partir do movimento. O termo movimento não designa apenas o deslocamento de um lugar para outro. Mas, a passagem da potencia ao ato. Ora, tudo aquilo que se move é movido por outrem. Admitindo que nada se move senão enquanto esta em potencia, em relação ao termo do movimento, enquanto que se move, move enquanto esta em potencia, ou seja, passa algo da potencia ao ato.
Visto que uma mesma coisa esteja ao mesmo tampo sob o mesmo aspecto em ato e potencia. Mas, poderá estar sob aspectos diversos, desta forma o que esta quente em ato não pode estar ao mesmo tampo quente em potencia. Mas, estando ao mesmo tempo frio em potência.
Neste caso é imponível ao mesmo tempo ser movente e movido, isto é, que se mova a si próprio. Portanto, tudo aquilo que se move seja movido por outrem. Desta maneira não se pode proceder assim ao infinito. Admitindo que não se daria um primeiro movimento e conseqüentemente no outro. Significa que os moventes intermediários não movam senão movidos pelo primeiro motor.
Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, por nenhum outro movido, ao qual dão o nome de Deus.


4.2 Segunda Via: das causas segundas para as causas primeiras.

Esta segunda via diz respeito à idéia de causa em geral. Todas as coisas existentes ou são causas ou são efeitos, não se podendo conceber que alguma coisa seja causa de si mesma.
Tomás de Aquino afirma que é impossível o processo ao infinitivo, ou seja, “é impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes” (COTRIM, 2000, p. 127) Por exemplo: uma fruta supõe uma árvore que supõe a fecundidade da terra, que supõe a ação do solo e da chuva; estes, por sua vez, supõem outros valores. Assim sendo, é necessário admitir finalmente uma primeira causa constante e não causada: Deus.
Na Suma Teológica, Santo Tomás explica esta segunda via da seguinte maneira:

Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos seres sensíveis; porém não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser. Mas, é impossível, nas causas eficientes proceder até o infinito; pois em todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da média e esta, da última, sejam as médias muitas ou uma só; e como, removida a causa, removido fica o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá média nem última procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus.



4.3 Terceira via: ser necessário e ser contingente

Segundo Cotrim, “este argumento é uma variante do segundo” (COTRIM, 2000, p. 127). A terceira via refere-se aos conceitos de necessidade e possibilidade.
Todos os seres estão em permanente transformação, alguns sendo gerados, outros se corrompendo e deixando de existir. Mas não é possível proceder ao infinito na série que se geram sucessivamente. Deve-se admitir, por isso que existe um ser necessário que tenha em si toda a razão de sua existência, e do qual procedam todos os outros seres. “Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno” (COTRIM, 2000, p. 127). A este chamamos Deus. Deus não recebeu o ser (existência), Ele é o ser.
Tomás de Aquino, denominado Doutor Angélico, descreve esta via como procedente do possível e do necessário:

Vemos que certas coisas podem ser e não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre todos os seres de tal natureza, pois o que podem não ser, algum tempo não foi. Se, portanto, todas as coisas podem não ser, algum tempo nem uma existia. Mas se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que na é só pode começar a existir por uma coisa já existente; ora, nem um ente existindo, é impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que, evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são possíveis, mas é forçoso que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de fora a causa da sua necessidade ou não tem. Mas não é possível proceder ao infinito nos seres necessários que tenha a causa da necessidade como também ou não é nas causas eficientes como já se provou. Por onde, é forçoso admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa de sua necessidade, entes sendo a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus.


4.4 Quarta-via: dos graus de perfeição ao absolutamente perfeito

A quarta via toma como base os graus de perfeição. Esse se refere aos graus hierárquicos que existe entre as coisas. Os graus de bondade, de verdade, nobreza e outras perfeições deste gênero. Mas os graus existem porque deve existir algo que possua o máximo da verdade, da bondade e da nobreza. E, sendo assim, existe algo que é verdadeiro, bom e nobre em grau máximo e, conseqüentemente, é ser, já que aquilo que é verdadeiro em grau máximo é também no ser. O máximo em cada gênero é a causa de tudo naquele gênero: por exemplo, o fogo, é causa de todas as outras coisas quentes. E para todos os entes deve existir algo que é causa do seu ser, de sua bondade de sua perfeição. Se o fogo é quente em grau máximo e é ele a causa de todas as coisas quentes, quem deu essa quentura ao fogo? Dizemos que foi Deus.
Absolutizando a verdade, a bondade, a nobreza e outros, Tomás afirma que todas as coisas que são tidas como verdadeiras, boas etc, o são em relação a um ser de modo absoluto. Pose-se dizer que esses entes participam da perfeição de um ser que permite a participação sem ser partícipe, porque é fonte de tudo aquilo que existe de algum modo.


4.5 Quinta-via: da ordem do Cosmo ao Supremo Ordenado

O quinto caminho deriva do governo do mundo.Vemos as coisas privadas de conhecimento atuarem segundo um fim; isto nos é manifestado pelo fato de sempre ou quase sempre, se comportarem da mesma forma e de modo a realizarem o que seja melhor para elas. Está claro que não alcançam o seu fim por acaso, mas por desejo (intenção). Tudo o que não tem conhecimento não pode mover-se em direção a um fim, a menos que seja dirigido por algum ente que seja dotado de conhecimento e inteligência. Da mesma maneira como a flecha é direcionada pelo arqueiro. Por tal modo existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas naturais para o seu fim, sendo que esse ser chama-se Deus.
Também este último caminho parte da constatação de que as coisas ou algumas delas agem e operam como se tendessem a um fim. Esta prova, sem deixar de ser integralmente cientifica, é a mais acessível ao senso comum. É o princípio de causalidade que serve para nos elevar desta ordem imediatamente apreendida para o Sumo Ordenador. Aqui não se trata da causa eficiente, mas da causa final e ao princípio de causalidade vem somar-se o de finalidade, onde todo o agente criado opera para um fim. Dizendo que alguns corpos naturais agem sempre ou quase sempre do mesmo modo, Thomas quer destacar duas coisas. A primeira é de que ele não parte da finalidade de todo universo e não pressupõe uma visão mecanicista da natureza, na qual Deus interviria juntando pedaços diferentes para construir o seu relógio. A finalidade constatada diz respeito a algumas coisas que tem em si um princípio de unidade e finalidade e a segunda é de que as exceções devidas ao acaso não reduzem a validade deste ponto de partida. Se o agir em função de um fim constitui certo modo de ser, pergunta-se qual será a causa desta regularidade, ordem e finalidade constatável em alguns entes. Tal causa não pode ser identificada com os próprios entes. Nisto que eles são privados de conhecimento e neste caso é necessário o conhecimento do fim, desta forma é preciso remontar a um ordenador dotado de conhecimento e em condições de dar ser aos entes, naquele modo específico no qual eles operam.

5. ALCANCE E VALOR DAS CINCO VIAS DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Em nosso tempo, muitos têm dificuldade em reconhecer a validade a estas “provas” da existência de Deus. As principais são: a persuasão de que os argumentos tradicionais se baseiam em concepções científicas ultrapassadas, sendo insustentáveis perante a ciência moderna; uma concepção diferente do princípio de causalidade; a confusão com as provas, por exemplo, dos racionalistas.
Mondim prossegue afirmando que “as provas” de Tomás não partem da definição de Deus para provarem sua existência, como fazem os racionalistas e nem partem das exigências do coração humano para concluir que deve existir um ser bom que as satisfaça como fazem os existencialistas. “As provas de Tomás partem de um fato (não de uma definição) e põe a descoberto uma situação de insuficiência (contingência), uma situação na qual o mundo não basta, por si mesmo para explicar o que ele é”.
Sobre essas cinco vias, Mondim encerra sua reflexão da seguinte maneira:

As cinco vias mostram que o primeiro impulso ao vir a ser não pode ter sido dado ao mundo pelo próprio mundo; que as causas segundas (e no mundo todas as coisas são apenas causas segundas) nunca são a causa total de determinado efeito (nunca é a causa do ser); que o que nasce e morre (e no mundo tudo está sujeito à geração e à corrupção) não é causa da existência própria; que o imperfeito procede do perfeito; que a ordem das coisas não foi estabelecida por nós. Esses argumentos provam a necessidade da existência de um Motor imóvel, de uma Causa primeira, de um Ser necessário, de uma Perfeição absoluta, de um Ordenador supremo (MONDIN, 2001, p.182).


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

- AQUINO, Tomás de. Suma teológica. V.1. Porto Alegre: Grafosul, 1980.

- CHALITA, Gabriel. Vivendo a filosofia. São Paulo. São Paulo: Atual, 2002.

- COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2000.

- JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et Ratio. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 1998.

- MASIP, Vicente. História da filosofia ocidental. Rio de Janeiro: E.P.U., 2001.

- MONDIN, Battista. Curso de filosofia. V. 1. São Paulo: Paulus, 2001.


7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluindo, podemos dizer que não se pode provar a existência de Deus por meios naturais, assim como se prova a exatidão de um teorema matemático. A realidade de Deus só pode ser apropriada pela fé, procurando-a pelos rastros que Ele mesmo deixou em nossa alma. A esse respeito, afirma João Paulo II: “Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão” (JOÃO PAULO II, 1998, p.61). E acrescenta ainda mais:

Desse modo a fé, dom de Deus, apesar de não se basear na razão, certamente não pode existir sem ela, ao mesmo tempo, surge a necessidade de que a razão se fortifique na fé, para descobrir os horizontes aos quais sozinha não poderia chegar (JOÃO PAULO II, 1998, p. 91).
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