Síntese: A razão pela qual elaboro este artigo científico é a seguinte: tendo em vista os dois aspectos do ser humano (racionalidade-razão / espiritualidade-fé), é importante sublinhar, sobretudo no mundo pluralizado em que vivemos, caracterizado pela razão e pelas ciências, que a fé também é um aspecto essencial na vida dos seres humanos. A fé e a razão têm espaço para se encontrar, e nenhuma anula a outra. “Tanto a fé quanto a razão, uma em prol da outra, exercem função de discernimento crítico e purificador, como de estímulo para progredir na investigação e no aprofundamento do sentido último e definitivo da existência humana” (JOÃO PAULO II, 2002, p. 133 e 135).
Abstract: The reason that I elaborated this scientific article is: in the view of the two human-being aspects (rationality-reason/ spirituality-faith), is very important to enphasize, mainly in the pluralized world where we live in and characterized through reason and sciencies, that faith also is an important aspect in human being life. Both, faith and reason may grow together without damage: “Both, faith and reason, in favor each enader, perform a critical and purifier discernment to encourage the progress in research and depth of the latest and final sense of human life" (JOÃO PABLO II, 2002, p. 133 and 135).
Palavras-chaves: Fé, Razão, Racionalismo, Fideísmo e Modernidade.
Introdução
Intenta-se, com este artigo científico, destacar o pensamento do Papa João Paulo II no que tange à relação entre fé e razão, visto que vivemos numa época em que, nos seres humanos, predomina o “triunfo da razão: vale o que é real, experimentável, eficaz, lógico, científico” (OLIVEIRA, 2004, p. 19). Ao longo desses dois anos de filosofia, cujo contributo foi ter me ensinado a pensar por mim mesmo, além de uma acentuada formação de um espírito crítico e reflexivo, observei que nem todas as perguntas encontram respostas satisfatórias. Na disciplina de Introdução à Filosofia, estudando, refletindo e aprofundando a Encíclica Papal “Fides et Ratio”, observei que a razão humana não é soberana em tudo. Ela tem o seu espaço, mas que deve ser dividido também com o da fé. Aristóteles, por sua vez, afirma que a virtude, a felicidade está no meio termo, no equilíbrio, e não no relativismo, no extremismo. Aqui, neste caso, refere-se ao Racionalismo e ao Fideísmo, duas correntes de pensamento extremistas, e que serão abordadas neste artigo.
1) Conceito de Fé e de Razão
Antes de entrar diretamente no tema proposto, penso ser fundamental ter presente em nossa mente o significado e o conceito de razão e de fé, que muito nos ajudará a compreendermos o pensamento de João Paulo II.
Razão (do latim: ratio), em sentido amplo, é a capacidade de julgar que caracteriza o ser humano, é a faculdade cognoscitiva intelectual, ou seja, é a capacidade que o ser humano tem de conhecer, em oposição aos sentidos .
Em sentido mais específico:
a razão é a capacidade de, partindo de certos princípios a priori, isto é, estabelecidos independentemente da experiência, estabelecer determinadas relações constantes entre as coisas, permitindo assim chegar `a verdade, ou demonstrar, justificar uma hipótese ou uma afirmação qualquer. (JAPIASSÚ, 1996, p. 230)
Analisando o pensamento de Japiassú, o ser humano (sujeito), dotado de razão, ao interagir, ao se correlacionar com as coisas (objetos), apreende o objeto, e o objeto é apreendido pelo sujeito. De fato, esta correlação entre o sujeito e o objeto, que é a essência do conhecimento, é que possibilita ao ser humano chegar ao conhecimento da verdade e a emitir juízos.
Graças à sua racionalidade, o ser humano tem a capacidade de conhecer, o que o diferencia das demais criaturas. Ele á a única criatura que não se contenta com o que é. Busca sempre mais, quer desentranhar do interior do seu ser os seus sonhos, seus projetos, suas utopias, seus desejos, querendo ser sempre melhor. O conhecimento é a busca da verdade. Não é um estado, mas um processo que o ser humano faz incessantemente, por ser dotado de razão. Em Delfos, a inscrição no Pórtico de Apolo: “conhece-te a ti mesmo” continua desafiando e convidando os seres humanos a conhecer-se, a fim de que o mistério humano seja mais e mais revelado, tendo em vista que o conhecimento é ilimitado. Quanto mais o ser humano busca o autoconhecimento, mais percebe que necessita se conhecer.
Dentre os variados recursos que o homem possui para progredir no conhecimento de si e da verdade, se sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta – eis uma das tarefas mais nobres da humanidade. (JOÃO PAULO II, 2002, p. 7)
Vista a razão, parto agora para o conceito e o significado de fé. Fé (do latim fides, confiança, crença), “é uma atitude religiosa do verdadeiro crente que se liga a Deus por um ato voluntário, a partir de uma testemunha de origem sobrenatural” (JAPIASSÚ, 1996, p. 100). A fé, por sua vez, é uma atitude, é uma expressão do ser humano, que procura responder e dar uma resposta ao apelo divino da graça, ou seja, o livre “sim” à Revelação de Deus. Isto nos mostra claramente que o ser humano tem sua dimensão espiritual, ou seja, não se limita nem se contenta com o finito, com o imanente, com o relativo; vai além de si mesmo.
Além da razão natural existe uma outra ordem de conhecimento, que o homem de modo algum pode atingir pelas suas próprias forças, a da Revelação divina. Por uma decisão totalmente livre, Deus se revela e se doa ao homem. Fá-lo revelando seu mistério, seu projeto benevolente, que concebeu desde toda a eternidade em Cristo em prol de todos os homens. Revela plenamente seu projeto enviando seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo. ... Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes por si mesmos. (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, p. 27 e 28)
Tendo já em mente o significado e o conceito de fé e de razão, dou o segundo passo dessa pesquisa, que é apresentar o pensamento e a divisão da Encíclica Fides et Ratio, para, em seguida, entrar diretamente no capítulo quarto, que é o tema específico deste artigo científico.
2) Carta Encíclica “Fides et Ratio”
O Papa João Paulo II, homem de fé e de profunda sabedoria, diante da realidade atual, onde predomina “o triunfo da razão: vale o que é real, experimentável, eficaz, lógico, científico” (OLIVEIRA, 2004, p. 19), marcadamente influenciada e dominada “pelo positivismo, agnosticismo, materialismo, relativismo, pragmatismo e, por fim, o niilismo, a filosofia do nada e a de que tudo vale nada” (KUJAWSKI, 1998, p. A20), é que João Paulo II, em setembro de 1998, lança sua encíclica intitulada “Fides et Ratio”, com o intuito de mostrar ao ser humano que a razão humana não é soberana em tudo, e que ele precisa também da fé para chegar ao conhecimento pleno da verdade.
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa também chegar à verdade plena sobre si próprio. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 5)
Com o desenfreado avanço das técnicas e das ciências que prometem a “solução” de todos os problemas (inclusive os humanos e religiosos), o ser humano, angustiado, frustrado, em busca de um sentido para a vida, se questiona e se interroga: “Quem sou eu? De onde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que existirá depois desta vida?" (JOÃO PAULO II, 1998, p. 6), é que João Paulo II procura encontrar respostas, fundamentando-as na fé em Jesus Cristo, visto que o ser humano não é só um ser racional, mas que também tem uma dimensão espiritual, transcendente. O ser humano, ao questionar sobre si mesmo, jamais deverá esquecer que, entre o conhecimento da fé e o conhecimento da razão, há uma profunda relação e que, se a razão e a fé forem separadas, o homem não poderá conhecer de modo adequado o objeto material da filosofia: o homem, Deus e o mundo.
A intenção principal de João Paulo II é mostrar que a filosofia tem o seu valor próprio no que diz respeito à inteligência da fé; que a filosofia encontra graves limites quando esquece ou rejeita as verdades da Revelação; que a fé e a filosofia (razão) exercem uma função mútua tanto de avaliação crítica e purificadora quanto de estímulo para progredir na busca e no aprofundamento da verdade.
O Sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas (cf. Rom 1, 20); mas ensina também que deve atribuir-se à Sua revelação poderem todos os homens conhecer com facilidade, firme certeza e sem mistura de erro aquilo que nas coisas divinas não é inacessível à razão humana, mesmo na presente condição do gênero humano. (DV 6)
Com certeza, para o bem e para o progresso do pensamento e do conhecimento do homem, de Deus e do mundo, a filosofia e a teologia (razão e fé) têm o dever de recuperar a sua genuína relação mútua, visto que os dois tipos de conhecimento e as duas faculdades não se excluem, mas se incluem, se complementam.
Ao longo da leitura e do estudo da encíclica papal, percebe-se que ela é de grande densidade filosófica e teológica.
A encíclica tem uma introdução e sete capítulos. De modo breve e claro, explicarei a divisão da encíclica e o pensamento principal de cada capítulo. Ater-me-ei, sobretudo, ao quarto capítulo, que é o tema central deste artigo.
O primeiro capítulo introduz o tema da Revelação da sabedoria de Deus, que foi revelada ao homem. O segundo capítulo, subintitulado “Credo ut intellegam” (creio para entender), apresenta a unidade entre o conhecimento pela razão e o conhecimento pela fé, ou seja, tudo aquilo que a razão atinge adquire pleno significado somente se é posto no horizonte da fé. O terceiro capítulo trata do ser humano que, dotado de razão, é um ser que interroga e que tem no seu coração o desejo de buscar e de encontrar a verdade. A busca da verdade e de respostas a questões humanas está presente em todos os povos. É algo universal. O quarto capítulo, como já disse anteriormente, será visto com atenção e minuciosamente, pelo fato de ser o tema específico deste artigo. O quinto capítulo apresenta, na primeira parte, as intervenções do magistério da Igreja em matéria filosófica e, na segunda parte, destaca a missão da Igreja: estimular a filosofia para a recuperação da sua missão primeira e originária. O sexto capítulo apresenta a interação da filosofia e da teologia. Com certeza, a teologia precisa da filosofia, porque a fé se não é pensada não é nada (Santo Agostinho); a filosofia precisa da Revelação para não perder-se no erro e para ampliar os seus horizontes. E no sétimo capítulo o Papa trata das exigências e das tarefas atuais, visto que:
nossa situação atual caracteriza-se fundamentalmente, pela “crise do sentido”, em razão da crescente fragmentação do saber. Desembocamos no ceticismo e no niilismo, com as mais perigosas conseqüências éticas e políticas. Ceticismo e niilismo só podem ser superados pela recuperação do sentido último e global da vida, graças ao conhecimento da verdade íntegra e total, ou seja, da verdade metafísica. (KUJAWSKI, 1998, p. A20)
E ainda acrescenta:
A nova encíclica de João Paulo II é lufada de ar puro que renova a alegria de viver no homem de nossos dias, asfixiado pela angústia de final de século e pelas toxinas de todo tipo de poluição, inclusive da poluição mental e ideológica. (KUJAWSKI, 1998, p. A20)
3) O desenvolvimento da relação entre a Fé e a Razão
Ao longo da história temos o drama da separação de ambas. Tratando-se do quarto capítulo da encíclica, tema central desta pesquisa filosófica, João Paulo II apresenta a discussão de São Paulo no areópago, em Atenas, com alguns filósofos epicuristas e estóicos (Rm 17, 18), afirmando que a tentativa de “encontro entre a filosofia e o cristianismo não foi fácil e nem imediato” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 53).
De fato a exercitação desta e a freqüência das respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros cristãos como transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e a mais urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do batismo, mas não precisariam ignorar a questão de aprofundar a compreensão de sua fé, até mesmo porque os evangelhos ofereciam uma resposta satisfatória ao sentido da vida, que era um dos aspectos mais discutidos entre os filósofos. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 53)
Na Patrística e na Escolástica surgem grandes filósofos, como Santo Agostinho que, influenciado pelo neoplatonismo, não via possibilidade de separação entre a filosofia e a religião. Para Agostinho há consenso muito íntimo entre fé e razão e, segundo ele, são inseparáveis, pois se a fé nos leva à adesão, deve-nos levar à compreensão e, se a fé precede o saber, o saber tende para a fé. Agostinho defendia a idéia de que é preciso ter razões para se ter fé: “intelligo ut credam, credo ut intellegam” (entendo para crer, creio para entender). Acreditava que a fé e a razão têm duas missões: procurar as razões naturais para crer e procurar a inteligência do que se crê. “A fé e a razão são de tal modo inseparáveis que o filósofo não pode separar o que Deus uniu” e, que “a fé e a razão, conjuntamente, dão a possibilidade do homem se encaminhar para a verdade que só se encontra em Deus”. Por isso, para Santo Agostinho, a filosofia é o caminho pelo qual nos encontramos com Deus.
Santo Anselmo (1033-1109), que fora um monge beneditino, considerado o pai da Escolástica, acreditava que é tarefa da razão humana penetrar e descobrir as razões das verdades da fé, ou seja, as razões de se crer. Para Santo Anselmo, a fé, para ser compreendida, precisa do auxílio e da ajuda da razão. Santo Justino pensava semelhantemente a Anselmo: de que não há oposição entre o cristianismo e a filosofia. Pelo contrário, é possível não só a convivência de ambas, mas também a harmonia e a colaboração entre esses dois modos de saber, o que provém da fé e o que é fundado na razão. Somente no cristianismo São Justino encontrou a verdadeira sabedoria, tornando-se um verdadeiro filósofo.
Santo Tomás de Aquino, denominado Doutor Angélico, foi o primeiro a harmonizar a razão e a fé. Ele reconheceu, com plena certeza, que o objeto da filosofia pode contribuir para a compreensão da Revelação divina.
Desse modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 60-61)
Para o Doutor Angélico há duas formas complementares de sabedoria: a filosófica, que se baseia na capacidade do intelecto dentro de seus limites de investigar a realidade, e a sabedoria teológica que tem, como fundamento, a Revelação que se fundamenta na fé e em Deus.
Santo Tomás de Aquino, sem dúvida, foi um amante da verdade, um “apóstolo da verdade”, como afirmou Paulo VI, na sua encíclica “Lumen Ecclesiae”, publicada a 20 de novembro de 1974. Isso pelo fato de se ter “consagrado sem reservas à verdade ... e pelo fato de sua filosofia ser a filosofia do ser, e não do simples aparecer” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 63).
O drama da separação entre a Fé e a Razão começará na Baixa Idade Média. Isso se deve ao demasiado e excessivo acento à razão humana por parte de alguns filósofos que, influenciados pelo Iluminismo, “endeusaram a razão humana”, já que o ser humano tornou-se a medida de todas as coisas, esquecendo-se de sua outra dimensão: a espiritual, a fé, o Transcendente. Assim sendo, a razão se esquece da Revelação e, por isso, não se poderá chegar à verdade, ao absoluto e ao fim das coisas. Pelo contrário, o ser humano cairá no niilismo, no vazio e não encontrará sentido para a vida e para a sua peregrinação terrena neste mundo. E como conseqüência disso, percebe-se também o ateísmo e a auto-suficiência, como já fora dito anteriormente.
A Igreja, Mãe e Mestra da fé e amante da Verdade, na qual nosso querido e saudoso João Paulo II exerceu seus vinte e seis anos de Supremo Pastor, anos esses dedicados na incessante busca da Verdade e de uma vida íntima com Deus, nos ensina que o ser humano é capaz de Deus (capax Dei) e que “embora a fé esteja acima da razão, não poderá existir nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão, porque o mesmo Deus que revela os seus mistérios e comunica a fé, foi também quem colocou no espírito humano a luz da razão. E Deus não poderia negar-se a si mesmo, pondo a verdade em contradição com a verdade” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, p. 27). Numa palavra: A fé está acima, não contra a razão!
A João Paulo II, nosso muito obrigado! Sem dúvida, com seu testemunho de fé e de vida, ele nos ensinou, através de sua bela carta encíclica Fides et Ratio, que a fé e a razão são a dupla maravilhosa, são as duas asas que nos permitirão voar e contemplar a Verdade, que é o próprio Cristo (Jo 15, 16), que veio ao mundo para nos dar vida plena e em abundância (Jo 10, 10).
4) A Relação entre a fé e a razão, Racionalismo e Fideísmo
Assim como o avião, para voar, precisa de duas asas, assim também para se chegar à contemplação da verdade que, para nós cristãos, é o próprio Cristo, é necessário a fé e a razão, “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer, para que, conhecendo-O e amando-O, possa também chegar à verdade plena sobre si próprio” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 5). A fé precisa da razão e a razão é aperfeiçoada pela fé. A fé não é inimiga da razão, e vice-versa, mas vai além e abre horizontes para a razão.
Em contrapartida, o Fideísmo (do latim fides: fé, portanto, a filosofia fundada na fé), por sua vez, é “a doutrina que admite a religião ou as verdades de fé que constituem objeto de pura crença, ou seja, que seriam verdades independentes de toda e qualquer justificativa racional” (JAPIASSÚ, 1996, p. 103). De fato, esse extremismo que descarta o conhecimento racional e o discurso filosófico para a compreensão da fé pode levar ao “biblicismo”, que é uma forma de fideísmo que faz da leitura e da Sagrada Escritura a única fonte da verdade, ignorando a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja.
Tratando-se ainda do Fideísmo, transcrevo as sábias palavras de D. Estevão Bettencourt a esse respeito:
Esta atitude pode levar à crendice ou à superstição, coisas tão freqüentes em nosso Brasil. Especialmente no mundo de hoje, pluralista como é. Quem crê, deve procurar as credenciais da sua fé; a fé é ato da inteligência humana e não um sentimento cego; por conseguinte, ela está baseada em razões para crer. Todos nós temos o direito de investigar a autenticidade e a historicidade dos evangelhos, o valor da Tradição, que nos transmite as verdades do Credo, autoridade de quem nos propõe a catequese... Este estudo só pode beneficiar a fé quando bem feito. Dizia o grande cientista Pasteur: “A pouca ciência afasta de Deus e muita ciência leva a Deus”. A fé não receia os estudos nem os avanços da ciência; ao contrário, principalmente a ciência moderna aponta para a grandeza e sabedoria do Criador. Daí a importância da formação doutrinária de todo bom católico, para sacudir a ignorância religiosa. (BETTENCOURT)
Quanto ao Racionalismo, é a posição oposta ao fideísmo. Admite como fonte de conhecimento somente aquilo que é possível ser alcançado pela razão humana. Para Bettencourt, “o racionalismo encurrala o ser humano dentro dos limites da sua pequenez e leva à angústia, ao desespero, ao vazio nihilista”. De fato, a razão humana não é soberana em tudo, nem auto-suficiente, pois o sentido último da existência humana e as respostas de seus questionamentos: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Por que existe o mal? O que é que existe depois desta vida? - encontram sua resposta no mistério do Verbo Encarnado: “O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento, Deus assume o rosto humano...”. (BORGES, cf. anexo) O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no âmbito da fé. A verdade da Revelação não é fruto de um pensamento elaborado pela razão. É um dom gratuito de Deus.
O ser humano, sendo um ser que almeja e busca constantemente a Verdade, só a alcançará com o auxílio da Fé (teologia) e da Razão Humana (filosofia), que busca o sentido e o significado último das coisas. A fé e a razão estão a serviço da Verdade. Portanto, Fé e Razão, longe de se oporem, complementam-se. A razão nos é dada para esclarecer nossa fé, e a fé, para complementar o que a razão humana não consegue alcançar. A Fé vem em auxílio da razão humana. Percebe-se que é necessário entender para crer e crer para entender. É necessário, portanto, que Fé e Razão andem juntas, como amigas, e não como inimigas.
5) Comentários de algumas autoridades eclesiásticas
Com referência ao tema “A Relação entre a fé e a razão em João Paulo II”, manifestaram-se as seguintes autoridades: Dom Eusébio Oscar Scheid SCJ, Dom Dadeus Grings, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger SCJ, Dom Orlando Brandes e Pe. Osnildo Carlos Klann SCJ.
a) Sabemos que o grande problema para a cultura de nosso tempo tem sido a separação entre fé e razão. A influência da Reforma Protestante, ignorando o tomismo e negando a capacidade da razão humana para o conhecimento de Deus, constituiu-se numa fronteira intransponível em relação ao conhecimento científico emergente, que atingiria enorme desenvolvimento nos séculos futuros.
A filosofia, por sua vez, passou a rejeitar o transcendente, tomando como critério o imanente. A busca da verdade e do sentido da vida foi substituída pelo pragmatismo como finalidade utilitarista. Daí o surgimento de dois territórios aparentemente intransponíveis: o conhecimento de Deus se daria exclusivamente pela fé e o conhecimento científico, exclusivamente pela razão.
Ironicamente, se assim podemos dizer, estas duas vertentes deram origem a uma conseqüência em comum: o ateísmo. Confinada ao subjetivismo e ao fideísmo em relação a Deus, a razão humana não poderia argumentar sobre Ele. A ciência, por sua vez, não poderia jamais admitir a existência de algo (ou Alguém) que superasse os seus limites, já que o homem se tornou a medida de tudo.
Percebemos, então, a visão de complementaridade entre fé e razão como uma imensa riqueza da doutrina católica, verdadeiramente capaz de preencher este abismo de separação que, na realidade, jamais existiu; foi apenas provocado pelas posturas já aludidas. Não se pode negar, evidentemente, a primazia da fé sobre a razão, mas é fato que ambas precisam caminhar juntas, para que o homem atinja a plenitude de sua adesão a Deus. O obséquio prestado à Revelação divina deve engajar o homem todo, sem prescindir da nobre aquiescência do intelecto, faculdade que nos eleva à imagem e semelhança de Deus.
Enraizado nesta tradição milenar da Igreja, encontramos o pensamento de João Paulo II, retomando o ensinamento que o Catolicismo jamais abandonou: a fé e a razão são as duas “asas” pelas quais o espírito humano chega a Deus. No século das incertezas e da “ditadura do relativismo”, conforme expressão do Papa Bento XVI, seu antecessor deixou para nós uma mensagem otimista de confiança na capacidade humana de conhecer a Verdade, pois não parte do homem, mas vem objetivamente a ele, por um Outro que a revela. A Igreja continua a afirmar corajosamente que o homem é ‘capax Dei’.
Dom Eusébio Oscar Scheid
b) A questão da fé e da razão se traduz numa grande harmonia como vida e pensamento. A Idade Moderna tentou separar filosofia e teologia. E logo se seguiu um empenho em incompatibilizar a fé com as ciências. O problema de fundo está numa espécie de vivissecção, como se fosse possível viver sem fé, de um lado ou, sem razão, de outro. A própria vida, porém, é a síntese de ambas e ela se desenvolve por esta dupla contribuição como das duas asas que nos permitem voar e chegar à verdade e conseqüentemente à felicidade.
Concluímos com a introdução da Encíclica do Papa João Paulo II: “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.
Dom Dadeus Grings
c) O mistério da Encarnação ajuda-nos a compreender o enigma da existência humana, do mundo criado e mesmo de Deus. Cristo, assumindo nossa natureza humana (melhor: nossa fragilidade, e sem pedir nada em troca!), anuncia: o mundo não é mau; o homem não se basta a si mesmo; a verdade não pode ser fruto da decisão da maioria (“Você decide”). “Verdade e liberdade ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem” (90). E, se perecessem, quem perderia seria o homem.
Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger
d) O pensamento filosófico de João Paulo II enfoca de maneira especial a antropologia e a ética. Era enamorado do tema: a dignidade humana. Na encíclica “Veritatis Splendor” temos uma boa pista para situar a Fides et Ratio como também o livro “Memória e Identidade”.
Fé e razão estão a serviço da verdade. A filosofia dá sentido à vida e para isso precisa do conhecimento e da consciência. Pela razão, quando reta, chegamos ao Criador. O conflito entre fé e razão é possível, quando existir falsa fé e falsa razão ou quando ambas se tornam ideologia ou reducionismo.
A fé precisa da razão e a razão é aperfeiçoada pela fé. A fé não é contra a razão, mas vai além e abre horizontes para a razão.
Esse assunto, fé e razão, é sumamente importante em nossos dias porque estamos vivendo uma falta de filosofia, de profundidade que leva facilmente ao misticismo, fanatismo e fundamentalismo. Por outro lado, a razão sem a fé, é arbitrariedade, racionalismo, uma espécie de escravidão da ciência fechada em si, que não permite uma visão global da realidade. É o chamado cientificismo que o Papa chama de “soberba filosófica”.
A ciência sem consciência, sem obediência à ética e à fé, é perigosa. Em nome da razão e da ciência cometemos crimes, terrorismo, armamentismo, violência. Por outro lado, a fé sem embasamento científico está gerando seitas e movimentos religiosos extremistas, inclusive uma volta do satanismo, do espiritismo e outros misticismos perigosos.
Sem o equilíbrio entre fé e razão, haverá espaço para o agnosticismo, o secularismo como também para uma religiosidade fanática e até desumana, ou o sincretismo à moda da Nova Era.
A cultura atual tem três grandes defasagens: a falta de filosofia, a falta de ética e a falta de escatologia (fé e esperança após a morte). Estas lacunas serão preenchidas pelo equilíbrio entre fé e razão. Igualmente o equilíbrio entre igualdade e responsabilidade de um lado e justiça e paz de outro, será possível à luz da razão e da fé.
Dom Orlando Brandes
e) Fé e Razão é um assunto muito polêmico, sempre atual, e desafiador. João Paulo II, em sua carta encíclica Fides et Ratio, afirma que tomou a iniciativa de escrever uma carta a respeito da busca da verdade objetiva a partir das duas fontes de conhecimento - a razão e a fé - porque é um “encargo que nos foi confiado a nós, Bispos; não podemos renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos” (Fides et Ratio, 6). Acrescenta outra razão para a publicação desse documento: “Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão (isto é, a reflexão começada na encíclica Veritatis Splendor), concentrando a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu fundamento em relação com a fé” (Fides et Ratio, 6).
A Fé e a Razão são duas fontes complementares do conhecimento humano. Não se contradizem nem se opõem; não existe concorrência entre ambas, porque ambas têm uma única fonte, que é Deus. (Santo Tomás de Aquino). Existe unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e da fé. Elas não podem ser separadas sem que a pessoa humana perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o sentido de sua vida e o seu destino último. Uma implica a outra. (João Paulo II, op. cit. 16-17).
Diante da fragilidade da razão humana de atingir com suas próprias luzes a verdade plena, a Revelação Divina vem em socorro dessa impotência e abre as portas para o transcendente, para o “al di là”.
João Paulo II foi um grande humanista. Desde sua primeira encíclica, sua preocupação maior em seus escritos e pronunciamentos foi sempre a pessoa humana. Isso se revela mais uma vez, na conclusão de sua Fides et Ratio, quando escreve: “A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem que Cristo salvou no mistério do seu amor e sobre a sua busca constante de verdade e de seu sentido. Iludindo-o, vários sistemas filosóficos convenceram-no de que ele é senhor absoluto de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o seu destino e o seu futuro, confiando apenas em si próprio e em suas forças. Ora, essa nunca poderá ser a grandeza do homem. Para a sua realização, será determinante apenas a opção de viver na verdade, construindo a própria casa à sombra da Sabedoria e nela habitando. Só neste horizonte da verdade poderá compreender, com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e ao conhecimento de Deus, como suprema realização de si mesmo” (Fides et Ratio, 107).
Pe. Osnildo Carlos Klann SCJ
Conclusão
O Papa João Paulo II, ao publicar a carta encíclica “Fides et Ratio”, aos 14 de setembro de 1998, vem mostrar à humanidade - marcada pela falta de conhecimento do sentido para a vida, pelo cientificismo, pelo racionalismo e pelo ateísmo: que a razão humana não é soberana em tudo e nem auto-suficiente; e que a mesma precisa do auxílio da fé para que a humanidade se desenvolva, visto que o ser humano é um ser racional e espiritual (ver anexo). Minha intenção, ao elaborar este trabalho, é levar o leitor a esta reflexão de Aristóteles: “A virtude está no meio termo”, e não no extremismo - especificamente abordados neste trabalho os dois opostos: o Racionalismo (que só aceita o que a razão humana pode demonstrar) e o Fideísmo (que desconsidera o conhecimento de ordem racional). Ao longo da história, São Paulo, discípulo de Jesus, bem como alguns filósofos da Patrística e da Escolástica, como Santo Agostinho, Santo Anselmo e Santo Tomás de Aquino, entre outros, se debruçaram, pensaram e refletiram sobre esse tema, tão polêmico e atual nos dias atuais. Isso, porque a necessidade da busca da verdade e do sentido último das coisas e da vida está impressa no ser humano, qual marca indelével que ele traz consigo.
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KUJAWSKI, Gilberto de Melo. Karol Wojtyla e sua cruzada pela verdade. O Estado de São Paulo. São Paulo, 25, outubro, 1998, p. A20.
MONDIN, Battista. Curso de filosofia. V. 1. 7. ed. São Paulo: Paulus, 1982.
OLIVEIRA, José Lisboa M. de. Viver os votos em tempos de pós-modernidade. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
PINTO, J. Barbosa (Org.). Sinopse: documentos conciliares do Vaticano II. Braga-Porto: livraria Apostolado da Imprensa, 1968.
SILVA, Adelmo José da. A integração entre razão e fé em Agostinho. Veritas. Porto Alegre, v. 48, nº 3, p. 337-342, setembro, 2003.
ZILLES, Urbano. Fé e razão. Teocomunicação. Porto Alegre, v.30, n° 127, p. 3-16, março, 2000.
Epistolário (documentos pessoais):
BRANDES, Dom Orlando. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 14 de julho de 2005. Joinville-SC.
GRINGS, Dom Dadeus. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 24 de junho de 2005. Porto Alegre-RS.
KLANN, Pe. Osnildo Carlos. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 28 de julho de 2005. Curitiba-PR.
KRIEGER, Dom Murilo Sebastião Ramos. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 15 de junho de 2005. Florianópolis-SC.
SCHEID, Dom Eusébio Oscar. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 25 de maio de 2005. Rio de Janeiro-RJ.
Anexo:
Letra da música “Duas Asas: fé e razão”, de Celina Borges.
Introdução: (G9 C9)
G9 C9 G9 C9 Am7 C9
Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo da verdade
G9 D/F# Em7 Bm7
De O conhecer a Ele, ó fé não tenhas medo da razão
C9 G9
Razão quem te criou foi Deus.
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu
Am7 C9 D
Duas asas que nos elevam em contemplação
G9 Am7 C9 G9 Am7
Deus sempre abençoa o esforço da busca, crer nada mais é pensar querendo
C9 G9
Pensar crendo e pensando crer
Am7 C9 G9
O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento
Am7 C9 G9
Falar de fé não é fácil, nem todo o que acredita crê
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9 Am7 C9 G9 Am7 C9 G9 Am7 C9 D
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9 Am7
Deus sempre abençoa o esforço da busca, crer nada mais é pensar querendo
C9 G9
Pensar crendo e pensando crer
Am7 C9 G9
O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento
Am7 C9 G9
Deus assume um rosto humano e todos têm acesso ao Pai.
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu.
Abstract: The reason that I elaborated this scientific article is: in the view of the two human-being aspects (rationality-reason/ spirituality-faith), is very important to enphasize, mainly in the pluralized world where we live in and characterized through reason and sciencies, that faith also is an important aspect in human being life. Both, faith and reason may grow together without damage: “Both, faith and reason, in favor each enader, perform a critical and purifier discernment to encourage the progress in research and depth of the latest and final sense of human life" (JOÃO PABLO II, 2002, p. 133 and 135).
Palavras-chaves: Fé, Razão, Racionalismo, Fideísmo e Modernidade.
Introdução
Intenta-se, com este artigo científico, destacar o pensamento do Papa João Paulo II no que tange à relação entre fé e razão, visto que vivemos numa época em que, nos seres humanos, predomina o “triunfo da razão: vale o que é real, experimentável, eficaz, lógico, científico” (OLIVEIRA, 2004, p. 19). Ao longo desses dois anos de filosofia, cujo contributo foi ter me ensinado a pensar por mim mesmo, além de uma acentuada formação de um espírito crítico e reflexivo, observei que nem todas as perguntas encontram respostas satisfatórias. Na disciplina de Introdução à Filosofia, estudando, refletindo e aprofundando a Encíclica Papal “Fides et Ratio”, observei que a razão humana não é soberana em tudo. Ela tem o seu espaço, mas que deve ser dividido também com o da fé. Aristóteles, por sua vez, afirma que a virtude, a felicidade está no meio termo, no equilíbrio, e não no relativismo, no extremismo. Aqui, neste caso, refere-se ao Racionalismo e ao Fideísmo, duas correntes de pensamento extremistas, e que serão abordadas neste artigo.
1) Conceito de Fé e de Razão
Antes de entrar diretamente no tema proposto, penso ser fundamental ter presente em nossa mente o significado e o conceito de razão e de fé, que muito nos ajudará a compreendermos o pensamento de João Paulo II.
Razão (do latim: ratio), em sentido amplo, é a capacidade de julgar que caracteriza o ser humano, é a faculdade cognoscitiva intelectual, ou seja, é a capacidade que o ser humano tem de conhecer, em oposição aos sentidos .
Em sentido mais específico:
a razão é a capacidade de, partindo de certos princípios a priori, isto é, estabelecidos independentemente da experiência, estabelecer determinadas relações constantes entre as coisas, permitindo assim chegar `a verdade, ou demonstrar, justificar uma hipótese ou uma afirmação qualquer. (JAPIASSÚ, 1996, p. 230)
Analisando o pensamento de Japiassú, o ser humano (sujeito), dotado de razão, ao interagir, ao se correlacionar com as coisas (objetos), apreende o objeto, e o objeto é apreendido pelo sujeito. De fato, esta correlação entre o sujeito e o objeto, que é a essência do conhecimento, é que possibilita ao ser humano chegar ao conhecimento da verdade e a emitir juízos.
Graças à sua racionalidade, o ser humano tem a capacidade de conhecer, o que o diferencia das demais criaturas. Ele á a única criatura que não se contenta com o que é. Busca sempre mais, quer desentranhar do interior do seu ser os seus sonhos, seus projetos, suas utopias, seus desejos, querendo ser sempre melhor. O conhecimento é a busca da verdade. Não é um estado, mas um processo que o ser humano faz incessantemente, por ser dotado de razão. Em Delfos, a inscrição no Pórtico de Apolo: “conhece-te a ti mesmo” continua desafiando e convidando os seres humanos a conhecer-se, a fim de que o mistério humano seja mais e mais revelado, tendo em vista que o conhecimento é ilimitado. Quanto mais o ser humano busca o autoconhecimento, mais percebe que necessita se conhecer.
Dentre os variados recursos que o homem possui para progredir no conhecimento de si e da verdade, se sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta – eis uma das tarefas mais nobres da humanidade. (JOÃO PAULO II, 2002, p. 7)
Vista a razão, parto agora para o conceito e o significado de fé. Fé (do latim fides, confiança, crença), “é uma atitude religiosa do verdadeiro crente que se liga a Deus por um ato voluntário, a partir de uma testemunha de origem sobrenatural” (JAPIASSÚ, 1996, p. 100). A fé, por sua vez, é uma atitude, é uma expressão do ser humano, que procura responder e dar uma resposta ao apelo divino da graça, ou seja, o livre “sim” à Revelação de Deus. Isto nos mostra claramente que o ser humano tem sua dimensão espiritual, ou seja, não se limita nem se contenta com o finito, com o imanente, com o relativo; vai além de si mesmo.
Além da razão natural existe uma outra ordem de conhecimento, que o homem de modo algum pode atingir pelas suas próprias forças, a da Revelação divina. Por uma decisão totalmente livre, Deus se revela e se doa ao homem. Fá-lo revelando seu mistério, seu projeto benevolente, que concebeu desde toda a eternidade em Cristo em prol de todos os homens. Revela plenamente seu projeto enviando seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo. ... Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes por si mesmos. (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, p. 27 e 28)
Tendo já em mente o significado e o conceito de fé e de razão, dou o segundo passo dessa pesquisa, que é apresentar o pensamento e a divisão da Encíclica Fides et Ratio, para, em seguida, entrar diretamente no capítulo quarto, que é o tema específico deste artigo científico.
2) Carta Encíclica “Fides et Ratio”
O Papa João Paulo II, homem de fé e de profunda sabedoria, diante da realidade atual, onde predomina “o triunfo da razão: vale o que é real, experimentável, eficaz, lógico, científico” (OLIVEIRA, 2004, p. 19), marcadamente influenciada e dominada “pelo positivismo, agnosticismo, materialismo, relativismo, pragmatismo e, por fim, o niilismo, a filosofia do nada e a de que tudo vale nada” (KUJAWSKI, 1998, p. A20), é que João Paulo II, em setembro de 1998, lança sua encíclica intitulada “Fides et Ratio”, com o intuito de mostrar ao ser humano que a razão humana não é soberana em tudo, e que ele precisa também da fé para chegar ao conhecimento pleno da verdade.
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa também chegar à verdade plena sobre si próprio. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 5)
Com o desenfreado avanço das técnicas e das ciências que prometem a “solução” de todos os problemas (inclusive os humanos e religiosos), o ser humano, angustiado, frustrado, em busca de um sentido para a vida, se questiona e se interroga: “Quem sou eu? De onde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que existirá depois desta vida?" (JOÃO PAULO II, 1998, p. 6), é que João Paulo II procura encontrar respostas, fundamentando-as na fé em Jesus Cristo, visto que o ser humano não é só um ser racional, mas que também tem uma dimensão espiritual, transcendente. O ser humano, ao questionar sobre si mesmo, jamais deverá esquecer que, entre o conhecimento da fé e o conhecimento da razão, há uma profunda relação e que, se a razão e a fé forem separadas, o homem não poderá conhecer de modo adequado o objeto material da filosofia: o homem, Deus e o mundo.
A intenção principal de João Paulo II é mostrar que a filosofia tem o seu valor próprio no que diz respeito à inteligência da fé; que a filosofia encontra graves limites quando esquece ou rejeita as verdades da Revelação; que a fé e a filosofia (razão) exercem uma função mútua tanto de avaliação crítica e purificadora quanto de estímulo para progredir na busca e no aprofundamento da verdade.
O Sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas (cf. Rom 1, 20); mas ensina também que deve atribuir-se à Sua revelação poderem todos os homens conhecer com facilidade, firme certeza e sem mistura de erro aquilo que nas coisas divinas não é inacessível à razão humana, mesmo na presente condição do gênero humano. (DV 6)
Com certeza, para o bem e para o progresso do pensamento e do conhecimento do homem, de Deus e do mundo, a filosofia e a teologia (razão e fé) têm o dever de recuperar a sua genuína relação mútua, visto que os dois tipos de conhecimento e as duas faculdades não se excluem, mas se incluem, se complementam.
Ao longo da leitura e do estudo da encíclica papal, percebe-se que ela é de grande densidade filosófica e teológica.
A encíclica tem uma introdução e sete capítulos. De modo breve e claro, explicarei a divisão da encíclica e o pensamento principal de cada capítulo. Ater-me-ei, sobretudo, ao quarto capítulo, que é o tema central deste artigo.
O primeiro capítulo introduz o tema da Revelação da sabedoria de Deus, que foi revelada ao homem. O segundo capítulo, subintitulado “Credo ut intellegam” (creio para entender), apresenta a unidade entre o conhecimento pela razão e o conhecimento pela fé, ou seja, tudo aquilo que a razão atinge adquire pleno significado somente se é posto no horizonte da fé. O terceiro capítulo trata do ser humano que, dotado de razão, é um ser que interroga e que tem no seu coração o desejo de buscar e de encontrar a verdade. A busca da verdade e de respostas a questões humanas está presente em todos os povos. É algo universal. O quarto capítulo, como já disse anteriormente, será visto com atenção e minuciosamente, pelo fato de ser o tema específico deste artigo. O quinto capítulo apresenta, na primeira parte, as intervenções do magistério da Igreja em matéria filosófica e, na segunda parte, destaca a missão da Igreja: estimular a filosofia para a recuperação da sua missão primeira e originária. O sexto capítulo apresenta a interação da filosofia e da teologia. Com certeza, a teologia precisa da filosofia, porque a fé se não é pensada não é nada (Santo Agostinho); a filosofia precisa da Revelação para não perder-se no erro e para ampliar os seus horizontes. E no sétimo capítulo o Papa trata das exigências e das tarefas atuais, visto que:
nossa situação atual caracteriza-se fundamentalmente, pela “crise do sentido”, em razão da crescente fragmentação do saber. Desembocamos no ceticismo e no niilismo, com as mais perigosas conseqüências éticas e políticas. Ceticismo e niilismo só podem ser superados pela recuperação do sentido último e global da vida, graças ao conhecimento da verdade íntegra e total, ou seja, da verdade metafísica. (KUJAWSKI, 1998, p. A20)
E ainda acrescenta:
A nova encíclica de João Paulo II é lufada de ar puro que renova a alegria de viver no homem de nossos dias, asfixiado pela angústia de final de século e pelas toxinas de todo tipo de poluição, inclusive da poluição mental e ideológica. (KUJAWSKI, 1998, p. A20)
3) O desenvolvimento da relação entre a Fé e a Razão
Ao longo da história temos o drama da separação de ambas. Tratando-se do quarto capítulo da encíclica, tema central desta pesquisa filosófica, João Paulo II apresenta a discussão de São Paulo no areópago, em Atenas, com alguns filósofos epicuristas e estóicos (Rm 17, 18), afirmando que a tentativa de “encontro entre a filosofia e o cristianismo não foi fácil e nem imediato” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 53).
De fato a exercitação desta e a freqüência das respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros cristãos como transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e a mais urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do batismo, mas não precisariam ignorar a questão de aprofundar a compreensão de sua fé, até mesmo porque os evangelhos ofereciam uma resposta satisfatória ao sentido da vida, que era um dos aspectos mais discutidos entre os filósofos. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 53)
Na Patrística e na Escolástica surgem grandes filósofos, como Santo Agostinho que, influenciado pelo neoplatonismo, não via possibilidade de separação entre a filosofia e a religião. Para Agostinho há consenso muito íntimo entre fé e razão e, segundo ele, são inseparáveis, pois se a fé nos leva à adesão, deve-nos levar à compreensão e, se a fé precede o saber, o saber tende para a fé. Agostinho defendia a idéia de que é preciso ter razões para se ter fé: “intelligo ut credam, credo ut intellegam” (entendo para crer, creio para entender). Acreditava que a fé e a razão têm duas missões: procurar as razões naturais para crer e procurar a inteligência do que se crê. “A fé e a razão são de tal modo inseparáveis que o filósofo não pode separar o que Deus uniu” e, que “a fé e a razão, conjuntamente, dão a possibilidade do homem se encaminhar para a verdade que só se encontra em Deus”. Por isso, para Santo Agostinho, a filosofia é o caminho pelo qual nos encontramos com Deus.
Santo Anselmo (1033-1109), que fora um monge beneditino, considerado o pai da Escolástica, acreditava que é tarefa da razão humana penetrar e descobrir as razões das verdades da fé, ou seja, as razões de se crer. Para Santo Anselmo, a fé, para ser compreendida, precisa do auxílio e da ajuda da razão. Santo Justino pensava semelhantemente a Anselmo: de que não há oposição entre o cristianismo e a filosofia. Pelo contrário, é possível não só a convivência de ambas, mas também a harmonia e a colaboração entre esses dois modos de saber, o que provém da fé e o que é fundado na razão. Somente no cristianismo São Justino encontrou a verdadeira sabedoria, tornando-se um verdadeiro filósofo.
Santo Tomás de Aquino, denominado Doutor Angélico, foi o primeiro a harmonizar a razão e a fé. Ele reconheceu, com plena certeza, que o objeto da filosofia pode contribuir para a compreensão da Revelação divina.
Desse modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. (JOÃO PAULO II, 1998, p. 60-61)
Para o Doutor Angélico há duas formas complementares de sabedoria: a filosófica, que se baseia na capacidade do intelecto dentro de seus limites de investigar a realidade, e a sabedoria teológica que tem, como fundamento, a Revelação que se fundamenta na fé e em Deus.
Santo Tomás de Aquino, sem dúvida, foi um amante da verdade, um “apóstolo da verdade”, como afirmou Paulo VI, na sua encíclica “Lumen Ecclesiae”, publicada a 20 de novembro de 1974. Isso pelo fato de se ter “consagrado sem reservas à verdade ... e pelo fato de sua filosofia ser a filosofia do ser, e não do simples aparecer” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 63).
O drama da separação entre a Fé e a Razão começará na Baixa Idade Média. Isso se deve ao demasiado e excessivo acento à razão humana por parte de alguns filósofos que, influenciados pelo Iluminismo, “endeusaram a razão humana”, já que o ser humano tornou-se a medida de todas as coisas, esquecendo-se de sua outra dimensão: a espiritual, a fé, o Transcendente. Assim sendo, a razão se esquece da Revelação e, por isso, não se poderá chegar à verdade, ao absoluto e ao fim das coisas. Pelo contrário, o ser humano cairá no niilismo, no vazio e não encontrará sentido para a vida e para a sua peregrinação terrena neste mundo. E como conseqüência disso, percebe-se também o ateísmo e a auto-suficiência, como já fora dito anteriormente.
A Igreja, Mãe e Mestra da fé e amante da Verdade, na qual nosso querido e saudoso João Paulo II exerceu seus vinte e seis anos de Supremo Pastor, anos esses dedicados na incessante busca da Verdade e de uma vida íntima com Deus, nos ensina que o ser humano é capaz de Deus (capax Dei) e que “embora a fé esteja acima da razão, não poderá existir nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão, porque o mesmo Deus que revela os seus mistérios e comunica a fé, foi também quem colocou no espírito humano a luz da razão. E Deus não poderia negar-se a si mesmo, pondo a verdade em contradição com a verdade” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, p. 27). Numa palavra: A fé está acima, não contra a razão!
A João Paulo II, nosso muito obrigado! Sem dúvida, com seu testemunho de fé e de vida, ele nos ensinou, através de sua bela carta encíclica Fides et Ratio, que a fé e a razão são a dupla maravilhosa, são as duas asas que nos permitirão voar e contemplar a Verdade, que é o próprio Cristo (Jo 15, 16), que veio ao mundo para nos dar vida plena e em abundância (Jo 10, 10).
4) A Relação entre a fé e a razão, Racionalismo e Fideísmo
Assim como o avião, para voar, precisa de duas asas, assim também para se chegar à contemplação da verdade que, para nós cristãos, é o próprio Cristo, é necessário a fé e a razão, “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer, para que, conhecendo-O e amando-O, possa também chegar à verdade plena sobre si próprio” (JOÃO PAULO II, 1998, p. 5). A fé precisa da razão e a razão é aperfeiçoada pela fé. A fé não é inimiga da razão, e vice-versa, mas vai além e abre horizontes para a razão.
Em contrapartida, o Fideísmo (do latim fides: fé, portanto, a filosofia fundada na fé), por sua vez, é “a doutrina que admite a religião ou as verdades de fé que constituem objeto de pura crença, ou seja, que seriam verdades independentes de toda e qualquer justificativa racional” (JAPIASSÚ, 1996, p. 103). De fato, esse extremismo que descarta o conhecimento racional e o discurso filosófico para a compreensão da fé pode levar ao “biblicismo”, que é uma forma de fideísmo que faz da leitura e da Sagrada Escritura a única fonte da verdade, ignorando a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja.
Tratando-se ainda do Fideísmo, transcrevo as sábias palavras de D. Estevão Bettencourt a esse respeito:
Esta atitude pode levar à crendice ou à superstição, coisas tão freqüentes em nosso Brasil. Especialmente no mundo de hoje, pluralista como é. Quem crê, deve procurar as credenciais da sua fé; a fé é ato da inteligência humana e não um sentimento cego; por conseguinte, ela está baseada em razões para crer. Todos nós temos o direito de investigar a autenticidade e a historicidade dos evangelhos, o valor da Tradição, que nos transmite as verdades do Credo, autoridade de quem nos propõe a catequese... Este estudo só pode beneficiar a fé quando bem feito. Dizia o grande cientista Pasteur: “A pouca ciência afasta de Deus e muita ciência leva a Deus”. A fé não receia os estudos nem os avanços da ciência; ao contrário, principalmente a ciência moderna aponta para a grandeza e sabedoria do Criador. Daí a importância da formação doutrinária de todo bom católico, para sacudir a ignorância religiosa. (BETTENCOURT)
Quanto ao Racionalismo, é a posição oposta ao fideísmo. Admite como fonte de conhecimento somente aquilo que é possível ser alcançado pela razão humana. Para Bettencourt, “o racionalismo encurrala o ser humano dentro dos limites da sua pequenez e leva à angústia, ao desespero, ao vazio nihilista”. De fato, a razão humana não é soberana em tudo, nem auto-suficiente, pois o sentido último da existência humana e as respostas de seus questionamentos: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Por que existe o mal? O que é que existe depois desta vida? - encontram sua resposta no mistério do Verbo Encarnado: “O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento, Deus assume o rosto humano...”. (BORGES, cf. anexo) O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no âmbito da fé. A verdade da Revelação não é fruto de um pensamento elaborado pela razão. É um dom gratuito de Deus.
O ser humano, sendo um ser que almeja e busca constantemente a Verdade, só a alcançará com o auxílio da Fé (teologia) e da Razão Humana (filosofia), que busca o sentido e o significado último das coisas. A fé e a razão estão a serviço da Verdade. Portanto, Fé e Razão, longe de se oporem, complementam-se. A razão nos é dada para esclarecer nossa fé, e a fé, para complementar o que a razão humana não consegue alcançar. A Fé vem em auxílio da razão humana. Percebe-se que é necessário entender para crer e crer para entender. É necessário, portanto, que Fé e Razão andem juntas, como amigas, e não como inimigas.
5) Comentários de algumas autoridades eclesiásticas
Com referência ao tema “A Relação entre a fé e a razão em João Paulo II”, manifestaram-se as seguintes autoridades: Dom Eusébio Oscar Scheid SCJ, Dom Dadeus Grings, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger SCJ, Dom Orlando Brandes e Pe. Osnildo Carlos Klann SCJ.
a) Sabemos que o grande problema para a cultura de nosso tempo tem sido a separação entre fé e razão. A influência da Reforma Protestante, ignorando o tomismo e negando a capacidade da razão humana para o conhecimento de Deus, constituiu-se numa fronteira intransponível em relação ao conhecimento científico emergente, que atingiria enorme desenvolvimento nos séculos futuros.
A filosofia, por sua vez, passou a rejeitar o transcendente, tomando como critério o imanente. A busca da verdade e do sentido da vida foi substituída pelo pragmatismo como finalidade utilitarista. Daí o surgimento de dois territórios aparentemente intransponíveis: o conhecimento de Deus se daria exclusivamente pela fé e o conhecimento científico, exclusivamente pela razão.
Ironicamente, se assim podemos dizer, estas duas vertentes deram origem a uma conseqüência em comum: o ateísmo. Confinada ao subjetivismo e ao fideísmo em relação a Deus, a razão humana não poderia argumentar sobre Ele. A ciência, por sua vez, não poderia jamais admitir a existência de algo (ou Alguém) que superasse os seus limites, já que o homem se tornou a medida de tudo.
Percebemos, então, a visão de complementaridade entre fé e razão como uma imensa riqueza da doutrina católica, verdadeiramente capaz de preencher este abismo de separação que, na realidade, jamais existiu; foi apenas provocado pelas posturas já aludidas. Não se pode negar, evidentemente, a primazia da fé sobre a razão, mas é fato que ambas precisam caminhar juntas, para que o homem atinja a plenitude de sua adesão a Deus. O obséquio prestado à Revelação divina deve engajar o homem todo, sem prescindir da nobre aquiescência do intelecto, faculdade que nos eleva à imagem e semelhança de Deus.
Enraizado nesta tradição milenar da Igreja, encontramos o pensamento de João Paulo II, retomando o ensinamento que o Catolicismo jamais abandonou: a fé e a razão são as duas “asas” pelas quais o espírito humano chega a Deus. No século das incertezas e da “ditadura do relativismo”, conforme expressão do Papa Bento XVI, seu antecessor deixou para nós uma mensagem otimista de confiança na capacidade humana de conhecer a Verdade, pois não parte do homem, mas vem objetivamente a ele, por um Outro que a revela. A Igreja continua a afirmar corajosamente que o homem é ‘capax Dei’.
Dom Eusébio Oscar Scheid
b) A questão da fé e da razão se traduz numa grande harmonia como vida e pensamento. A Idade Moderna tentou separar filosofia e teologia. E logo se seguiu um empenho em incompatibilizar a fé com as ciências. O problema de fundo está numa espécie de vivissecção, como se fosse possível viver sem fé, de um lado ou, sem razão, de outro. A própria vida, porém, é a síntese de ambas e ela se desenvolve por esta dupla contribuição como das duas asas que nos permitem voar e chegar à verdade e conseqüentemente à felicidade.
Concluímos com a introdução da Encíclica do Papa João Paulo II: “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.
Dom Dadeus Grings
c) O mistério da Encarnação ajuda-nos a compreender o enigma da existência humana, do mundo criado e mesmo de Deus. Cristo, assumindo nossa natureza humana (melhor: nossa fragilidade, e sem pedir nada em troca!), anuncia: o mundo não é mau; o homem não se basta a si mesmo; a verdade não pode ser fruto da decisão da maioria (“Você decide”). “Verdade e liberdade ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem” (90). E, se perecessem, quem perderia seria o homem.
Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger
d) O pensamento filosófico de João Paulo II enfoca de maneira especial a antropologia e a ética. Era enamorado do tema: a dignidade humana. Na encíclica “Veritatis Splendor” temos uma boa pista para situar a Fides et Ratio como também o livro “Memória e Identidade”.
Fé e razão estão a serviço da verdade. A filosofia dá sentido à vida e para isso precisa do conhecimento e da consciência. Pela razão, quando reta, chegamos ao Criador. O conflito entre fé e razão é possível, quando existir falsa fé e falsa razão ou quando ambas se tornam ideologia ou reducionismo.
A fé precisa da razão e a razão é aperfeiçoada pela fé. A fé não é contra a razão, mas vai além e abre horizontes para a razão.
Esse assunto, fé e razão, é sumamente importante em nossos dias porque estamos vivendo uma falta de filosofia, de profundidade que leva facilmente ao misticismo, fanatismo e fundamentalismo. Por outro lado, a razão sem a fé, é arbitrariedade, racionalismo, uma espécie de escravidão da ciência fechada em si, que não permite uma visão global da realidade. É o chamado cientificismo que o Papa chama de “soberba filosófica”.
A ciência sem consciência, sem obediência à ética e à fé, é perigosa. Em nome da razão e da ciência cometemos crimes, terrorismo, armamentismo, violência. Por outro lado, a fé sem embasamento científico está gerando seitas e movimentos religiosos extremistas, inclusive uma volta do satanismo, do espiritismo e outros misticismos perigosos.
Sem o equilíbrio entre fé e razão, haverá espaço para o agnosticismo, o secularismo como também para uma religiosidade fanática e até desumana, ou o sincretismo à moda da Nova Era.
A cultura atual tem três grandes defasagens: a falta de filosofia, a falta de ética e a falta de escatologia (fé e esperança após a morte). Estas lacunas serão preenchidas pelo equilíbrio entre fé e razão. Igualmente o equilíbrio entre igualdade e responsabilidade de um lado e justiça e paz de outro, será possível à luz da razão e da fé.
Dom Orlando Brandes
e) Fé e Razão é um assunto muito polêmico, sempre atual, e desafiador. João Paulo II, em sua carta encíclica Fides et Ratio, afirma que tomou a iniciativa de escrever uma carta a respeito da busca da verdade objetiva a partir das duas fontes de conhecimento - a razão e a fé - porque é um “encargo que nos foi confiado a nós, Bispos; não podemos renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos” (Fides et Ratio, 6). Acrescenta outra razão para a publicação desse documento: “Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão (isto é, a reflexão começada na encíclica Veritatis Splendor), concentrando a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu fundamento em relação com a fé” (Fides et Ratio, 6).
A Fé e a Razão são duas fontes complementares do conhecimento humano. Não se contradizem nem se opõem; não existe concorrência entre ambas, porque ambas têm uma única fonte, que é Deus. (Santo Tomás de Aquino). Existe unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e da fé. Elas não podem ser separadas sem que a pessoa humana perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o sentido de sua vida e o seu destino último. Uma implica a outra. (João Paulo II, op. cit. 16-17).
Diante da fragilidade da razão humana de atingir com suas próprias luzes a verdade plena, a Revelação Divina vem em socorro dessa impotência e abre as portas para o transcendente, para o “al di là”.
João Paulo II foi um grande humanista. Desde sua primeira encíclica, sua preocupação maior em seus escritos e pronunciamentos foi sempre a pessoa humana. Isso se revela mais uma vez, na conclusão de sua Fides et Ratio, quando escreve: “A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem que Cristo salvou no mistério do seu amor e sobre a sua busca constante de verdade e de seu sentido. Iludindo-o, vários sistemas filosóficos convenceram-no de que ele é senhor absoluto de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o seu destino e o seu futuro, confiando apenas em si próprio e em suas forças. Ora, essa nunca poderá ser a grandeza do homem. Para a sua realização, será determinante apenas a opção de viver na verdade, construindo a própria casa à sombra da Sabedoria e nela habitando. Só neste horizonte da verdade poderá compreender, com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e ao conhecimento de Deus, como suprema realização de si mesmo” (Fides et Ratio, 107).
Pe. Osnildo Carlos Klann SCJ
Conclusão
O Papa João Paulo II, ao publicar a carta encíclica “Fides et Ratio”, aos 14 de setembro de 1998, vem mostrar à humanidade - marcada pela falta de conhecimento do sentido para a vida, pelo cientificismo, pelo racionalismo e pelo ateísmo: que a razão humana não é soberana em tudo e nem auto-suficiente; e que a mesma precisa do auxílio da fé para que a humanidade se desenvolva, visto que o ser humano é um ser racional e espiritual (ver anexo). Minha intenção, ao elaborar este trabalho, é levar o leitor a esta reflexão de Aristóteles: “A virtude está no meio termo”, e não no extremismo - especificamente abordados neste trabalho os dois opostos: o Racionalismo (que só aceita o que a razão humana pode demonstrar) e o Fideísmo (que desconsidera o conhecimento de ordem racional). Ao longo da história, São Paulo, discípulo de Jesus, bem como alguns filósofos da Patrística e da Escolástica, como Santo Agostinho, Santo Anselmo e Santo Tomás de Aquino, entre outros, se debruçaram, pensaram e refletiram sobre esse tema, tão polêmico e atual nos dias atuais. Isso, porque a necessidade da busca da verdade e do sentido último das coisas e da vida está impressa no ser humano, qual marca indelével que ele traz consigo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BETTENCOURT, Estevão. Fé e razão. s.l, s.d.
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COSTA, José Silveira da. Tomás de Aquino: a razão à serviço da fé. São Paulo: Moderna, 1993. Coleção Logos.
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HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. 7. ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1976.
JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário de filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 103 e 229.
JOÃO PAULO II. Carta encíclica Fides et Ratio. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2002.
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OLIVEIRA, José Lisboa M. de. Viver os votos em tempos de pós-modernidade. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
PINTO, J. Barbosa (Org.). Sinopse: documentos conciliares do Vaticano II. Braga-Porto: livraria Apostolado da Imprensa, 1968.
SILVA, Adelmo José da. A integração entre razão e fé em Agostinho. Veritas. Porto Alegre, v. 48, nº 3, p. 337-342, setembro, 2003.
ZILLES, Urbano. Fé e razão. Teocomunicação. Porto Alegre, v.30, n° 127, p. 3-16, março, 2000.
Epistolário (documentos pessoais):
BRANDES, Dom Orlando. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 14 de julho de 2005. Joinville-SC.
GRINGS, Dom Dadeus. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 24 de junho de 2005. Porto Alegre-RS.
KLANN, Pe. Osnildo Carlos. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 28 de julho de 2005. Curitiba-PR.
KRIEGER, Dom Murilo Sebastião Ramos. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 15 de junho de 2005. Florianópolis-SC.
SCHEID, Dom Eusébio Oscar. Carta manuscrita acerca do tema, datada de 25 de maio de 2005. Rio de Janeiro-RJ.
Anexo:
Letra da música “Duas Asas: fé e razão”, de Celina Borges.
Introdução: (G9 C9)
G9 C9 G9 C9 Am7 C9
Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo da verdade
G9 D/F# Em7 Bm7
De O conhecer a Ele, ó fé não tenhas medo da razão
C9 G9
Razão quem te criou foi Deus.
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu
Am7 C9 D
Duas asas que nos elevam em contemplação
G9 Am7 C9 G9 Am7
Deus sempre abençoa o esforço da busca, crer nada mais é pensar querendo
C9 G9
Pensar crendo e pensando crer
Am7 C9 G9
O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento
Am7 C9 G9
Falar de fé não é fácil, nem todo o que acredita crê
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9 Am7 C9 G9 Am7 C9 G9 Am7 C9 D
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9 Am7
Deus sempre abençoa o esforço da busca, crer nada mais é pensar querendo
C9 G9
Pensar crendo e pensando crer
Am7 C9 G9
O Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento
Am7 C9 G9
Deus assume um rosto humano e todos têm acesso ao Pai.
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé.
Am7 C9 G9
A fé e a razão, a fé e a razão, razão e a fé
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu
Am7 C9 G9
Duas asas que nos elevam para o céu.
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Luta é sorte, mas, no vasto livro que o senhor leu é fácil de entender que eu fui errado em dizer que ninguém é louco ao servir sua melhor porção de crer em vão. E se ninguém é louco ao lhe falar disso então eu vou te falar, qual luta você deve lutar, esse destemido roçar de visão pode lo deixar sem ter nada e se na sua caminhada você não tiver, tu deixa os seus ao luz de sol, e só é previsto o que nem eu este humilde homem pode prever mas, qual livro sua pessoa deve ter, ao viver as coisas, prosa e ler posso dizer que os livros são rosas em vasos quando você vê-los ao seu moral.